José Narcelio Marques Sousa

Será que em alguma igreja deste nosso país continente, ainda se ouve repicar sinos anunciando a celebração de um casamento? Sei bem que era um costume antigo que tendeu ao desaparecimento, embora ainda continue vivo nas reminiscências de minha infância. Sumiu como outros maneirismos austeros, que caracterizavam a liturgia do matrimônio. Aliás, se existe uma solenidade milenar a sofrer tantas e chocantes transformações no transcorrer do século passado, essa se intitula: cerimônia católica do casamento. Tanto no ato religioso em si – com mais interatividade entre celebrante e assembleia – como na festividade comemorativa.

Antes prevalecia a simplicidade, decorrente de uma liturgia repleta de significado, que nos levava a refletir e a rogar com fé pela felicidade do casal que ali se constituía, sob a égide de “o que Deus uniu o homem não separa!”. Comumente, assistíamos cerimônias longas e enfadonhas, mas repletas de religiosidade. Coisa rara era percebermos, nessas ocasiões, modificações temporárias desvirtuando a decoração original da igreja, pois havia certa rigidez quanto a esse aspecto. Nos convites impressos constava além das informações de praxe acerca do casal, de seus genitores e do local da cerimônia, uma observação taxativa e esclarecedora: “Os nubentes receberão os cumprimentos na igreja”. E pronto!

E agora? Ah, meu caro leitor, agora tudo está diferente! O passar do tempo fez mudanças significativas no casório. Hoje, os sinos das igrejas não dobram nem para defuntos. Na atualidade, nos templos católicos, aceitam-se enfeites e outros procedimentos inimagináveis outrora. Iluminação feérica, filmagens cinematográficas, tapetes vistosos, som de alta qualidade, mimos para os convidados e flores naturais, em abundância, para engalanar a igreja inteira. Existem também aquelas inovações de temporada, proporcionadas pela bem sucedida indústria do casamento.

Aqui abro parênteses. Numa dessas núpcias bem produzidos a qual compareci, após a entrada do noivo e dos padrinhos, fecharam a porta principal da igreja, a fim de a noiva se posicionar para o seu ingresso triunfal. Haja demorar e eu, distraído, me entretinha em admirar a beleza da decoração do ambiente, tentando avaliar o custo de tudo aquilo. Lá pelas tantas, e sem que me avisassem, a porta se abriu e ouvi o som agudo de trombetas. Suponho que tenha sido de potência semelhante ou superior a que derrubou as muralhas de Jericó, pois o susto quase me levou a outro infarto. Ufa! Fecho parênteses.

Hoje, para quem pode bancar a festa, sente prazer em satisfazer desejos de esposa e filha nubente, gosta de receber bem amigos e convidados, não existem limites para a criatividade nem para as despesas com o evento. O casamento moderno assumiu proporções de produções épicas hollywoodianas, com muito luxo e muita pompa. Se a cerimônia em si já é espetacular, a recepção nada fica a desejar em deslumbramento e inventividade. As bebidas de qualidade e o bufê do melhor padrão gastronômico passam para um segundo plano, diante da variedade de entretenimentos, da distribuição de brindes e de serviços ofertados para agradar padrinhos e convivas. O casamento deixou de ser uma festa de exclusiva homenagem aos noivos para se transformar num acontecimento de gala, cujo objetivo é a satisfação, o bem-estar e o deslumbramento dos presentes.

São festas imperdíveis, porquanto, boas, bonitas e baratas. Baratas – bem entendido! – para os convidados. Portanto, vivas ao evento, ops!, digo, casamento moderno!

José Narcelio Marques Sousa é engenheiro civiljnsousa29@gmail.com

Ponto de Vista

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