José Narcelio Marques Sousa

Mesmo diante de preconceituosa relutância, mas impulsionados por um dever de consciência, temos de admitir nossa condição de escravos da vontade dessas mulheres maravilhosas. E pensar que já houve um tempo em que, empunhando borduna numa das mãos, as arrastávamos cavernas adentro para nos aquecer do frio ou, eventualmente, servir de instrumento de preservação da espécie. Hem? Quem viu essa cena, há muito virou fóssil; quem não a viu, esqueça, pois não a verá jamais.

Os homens, ao longo dos séculos regrediram, perderam a condição de todo-poderosos, de senhores feudais, para a de meros espectadores diante da evolução do sexo oposto. Enquanto as mulheres – ah, essas mulheres maravilhosas! -, ultrapassaram barreiras, derrubaram mitos, desmoralizaram convenções, enterraram preconceitos e demarcaram o espaço desejado por elas na sociedade.

Escolheram o que melhor sabiam fazer, e transferiram aos homens atribuições próprias da masculinidade, como cozinhar, passar, lavar, costurar, pentear, arrumar casa, fazer supermercado, limpar sujeira de cachorro e carregar peso. Parir é uma prerrogativa divina, abençoada por Deus, esta elas preservaram, mas imputaram aos homens a nobre tarefa de cuidar das crianças.

No processo evolutivo de eliminação da incômoda condição de subserviência ao homem, as mulheres se tornarem livres, leves, soltas, independentes e senhoras de si e dos próprios destinos. No transcorrer de gerações foram abnegando certos qualificativos diminutivos de exaltação à feminilidade, tipo gatinha, fofinha, piteuzinho, cabritinha, filezinho e bonitinha, na mesma proporção em que economizavam elogios ao padrão de qualidade masculino subtraindo adjetivações superlativas, como machão, garanhão, homenzarrão e gostosão.

Bem cuidadas, bem produzidas, bem apessoadas, mais vaidosas e seguras das novas posições conquistadas, adoram ser tratadas como colosso, deusa, diva, musa, oitava maravilha, monumento, avião e mulherão.

Se por um lado, essa condição ampliou a autoestima feminina, por outro lado destruiu a masculina, criando uma legião de pênis acabrunhados, dopados, complexados, intimidados, inseguros no processo de envolvimento amoroso e no papel de conquistador perante mulheres poderosas. Homens acovardados, incapazes de absorver com naturalidade o sucesso das fêmeas no mundo moderno; e, desapontados ao constatar o ocaso da virilidade dos marmanjos na relação interpessoal homem mulher. Será a comprovação do final dos tempos ou apenas um sinal da involução do macho? Não sei responder.

Mas nem tudo está perdido. As mulheres ainda cultivam muitas das manias, ódios e virtudes de outrora. Elas adoram serem alvos da atenção dos parceiros, passar horas ao telefone, receber flores, senso de humor sadio e romantismo. Gostam de um ombro amigo para chorar, de elogios, beijos, cartões de crédito sem limite para gastos, carinho e histórias de amor.

Detestam roupa usada espalhada pelo quarto, ganhar lingerie de presente, rachar conta em restaurante, barriga mole de chope, esquecimento de data importante e não ser notada de visual novo. Continuam indo em dupla ao banheiro para falar bem de seus homens e mal das mulheres.

Resumindo, guardam poucos dos predicados que nós homens não cansamos de admirar, e muitas das pirraças que detestamos aceitar. Segundo Arnaldo Jabor, as mulheres não são mais para amar nem para casar, são apenas para ver.

Discordo dele, as mulheres existem para que as amemos desde que não nos preocupemos em entendê-las. O resto é implorar aos céus com devoção: “Senhor, dai-nos força para mudar o que posso; coragem para aceitar o que não posso e sabedoria para compreender a diferença.” Assim seja!

José Narcelio Marques SousaEscritor e engenheiro civil

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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