ENTRE SILÊNCIO E LIBERDADE – Flávia Arruda

ENTRE SILÊNCIO E LIBERDADE…

Um dia desses, enquanto o sol se levantava preguiçosamente no horizonte, imaginava a dança silenciosa e solitária das escolhas que fazemos, do modo que pautamos os dias e as construções de vida, cheia de imperfeições. Acordei com a mente repleta de planos, convicta e cheia de estratégias, o sentimento de esperança que me invadia dizia através dos acanhados raios de luz que “hoje” seria diferente. Levantei, sacodi a poeira e fui dar a volta por cima, e assim aconteceu: A rotina se desenrolou como um fio invisível, entrelaçando momentos de ação e inação, vozes e quietação. Nada muito diferente dos ontens.

A rotina frenética, muitas vezes, nos impele ao silêncio. Em situações corriqueiras, as palavras falham, reduzindo-se a vagas exclamações. Paradoxalmente, esses silêncios podem ser mais eloquentes que longos discursos, carregando em si emoções profundas que pairam no ar como nuvens carregadas. Quantas vezes deixamos de nos expressar por medo do julgamento ou por acreditar que nossas vozes seriam engolidas pela cacofonia do mundo? Esses remansos se acumulam, criando uma muralha invisível entre nós e os outros.

Tomamos decisões todos os dias: o que dizer, o que calar, o que tentar, o que não fazer de jeito nenhum. Muitas vezes, essas opções são experimentos lançados ao léu. Talvez, não tenho tanta certeza, ao abrir o coração e compartilhar propósitos e emoções, vontades e desagrados, seja algo valioso e necessário. No entanto, o resultado nem sempre é o esperado. O entendimento, por sorte, é apenas uma travessia melindrosa, que pode se tornar uma verdadeira avalanche de mal-entendidos, caso o terreno esteja comprometido. Erro de comunicação… falta dela? Tudo junto e misturado.

Lembro-me de um projeto de gestão com foco no capital humano em que coloquei toda a minha energia e garra, dei meu suor e minha cara a tapa. Com muita naturalidade e confiança, compartilhei e pus em prática a minha visão de mundo, era sobre convivência e empatia, algo tão nítido e desejado por tantos, pelo menos esse é o discurso que está em voga, a onda da vez. Do que se tratava? Deixe-me explicar melhor, é do que se trata, pois a concepção de mundo que construí ao longo da minha jornada não pode ser desfeita por quem não consegue abrir a mente e se permitir compreender questões simples como respeito, individualidade, liberdade e, acima de tudo ter consciência coletiva.

Pois bem, a prática não conseguiu acompanhar a utopia das minhas ideias, do meu modo de enxergar o elementar, agora, pense numa confusão do tamanho do pau da bandeira, aquilo estava mais para a torre de Babel. As palavras e ações não encontraram eco; o meu estarrecimento tomou conta novamente, mas desta vez estava sobrecarregado pela incompreensão, pura falta do entendimento inteligível. O que eu via como algo massa era percebido como atitudes de uma pessoa Laissez-faire. Deixar fazer, deixar acontecer não significa desimportância nem muito menos falta de pulso, intervenção ou orientação. Sempre me questionei sobre a necessidade de agir com rigor extremo, cerceando o indivíduo daquilo que lhe é mais precioso. A autonomia de construção nas relações interpessoais que me propus, e proponho, pelos espaços que transitei, e transito, não foi acompanhada pela consciência educativa sobre a responsabilidade que se tem nas ações e reações de cada gesto e atitude.

Essa experiência me fez refletir sobre como muitas vezes falhamos em entender o contexto em que estamos inseridos. O ato de compartilhar algo íntimo exige não apenas coragem, mas também uma sensibilidade coletiva. É preciso estar atento às vozes que podem se perder no caminho e aos calem-se que podem surgir em resposta às nossas ofertas. E assim seguimos, navegando entre decisões e consequências, entre vozes e recuos. Cada dia traz novas oportunidades para experimentar e aprender com os erros, isto é fato. É nesse espaço de atrevimento e vulnerabilidade que reside a beleza da existência: a chance de tentar novamente, de reformular nossas expressões e buscar conexões mais profundas.

No final das contas, as resoluções que fazemos são reflexos das nossas intenções mais sinceras, mesmo quando os resultados fogem ao planejado. E os silêncios? Eles são apenas uma parte do processo — um convite à reflexão sobre nós mesmos e sobre o outro. Espero, sinceramente, que possamos aprender a escutar tanto as vozes quanto as quietudes uns dos outros, buscando sempre construir pontes onde existem muros, lembrando que não há um só beneficiário, todos somos, de um jeito ou de outro, o importante é respeitar os espaços comuns e individuais, ser solidário e empático.

Vida que segue, cheia de corre, mas, com a esperança renovada de que cada novo dia, preguiçoso ou não, nos traga a coragem necessária para falar e ouvir com o coração e a mente abertos. É na liberdade das escolhas e na consciência das reações que encontramos nosso verdadeiro lugar no mundo. A vida é uma deliciosa forma de usufruto, bora ser feliz e reparar menos no outro, como diria meu avô: É importante!

 

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim, crônicasflaviaarruda@gmail.com

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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