ENTRE O DIREITO E A JUSTIÇA: A LIÇÃO DO POÇO E DA ÁGUA –
“A justiça é a constante e perpétua vontade de dar a cada um o que lhe é devido.”
— Ulpiano
“A moral é a base do direito, e o direito é o mínimo de moral.”
— Georg Jellinek
Um advogado vende um poço a um professor. Dois dias depois, retorna com uma proposta inusitada: a água não fazia parte do contrato. Se o professor quiser utilizá-la, deverá pagar um valor adicional.
O professor, com a serenidade de quem ensina a pensar, responde:
— “Então retire sua água do meu poço, ou começará a pagar aluguel a partir de amanhã.”
O advogado hesita, recua, disfarça:
— “Eu estava apenas brincando.”
O professor sorri e conclui:
— “É assim que muitos se tornam advogados depois de estudarem conosco.”
Este singelo episódio, quase uma fábula, carrega em si mais do que ironia. Ele desnuda o eterno conflito entre o saber jurídico e a ética que deveria acompanhá-lo. Em tempos em que a astúcia é confundida com inteligência e a malícia com competência, torna-se essencial lembrar que a verdadeira sabedoria está na capacidade de unir conhecimento com integridade.
A narrativa é uma metáfora poderosa sobre os desvios possíveis na aplicação da técnica jurídica sem o filtro da moral. O advogado, mesmo conhecedor da norma, tenta manipular a interpretação do contrato para obter vantagem indevida. Já o professor, com sabedoria e lógica, rebate com firmeza e ensina — não apenas com palavras, mas com princípios.
O Código Civil brasileiro, ao dispor sobre a relação entre bem principal e bem acessório, nos ensina que a água, enquanto elemento natural do poço, segue juridicamente seu destino. A tentativa de dissociação revela-se absurda à luz da boa-fé objetiva — princípio fundamental das relações contratuais. No plano ético, tal dissociação é ainda mais grave: ela transgride a confiança, valor que deveria fundamentar toda prática jurídica.
Vivemos em um tempo em que o Direito é cada vez mais chamado a se reconciliar com a Justiça. Não basta dominar o código, a jurisprudência ou a doutrina. É preciso agir com retidão, com discernimento e responsabilidade. O verdadeiro jurista não é aquele que encontra brechas, mas aquele que fecha lacunas com justiça e sensatez.
A filosofia jurídica nos lembra que o Direito, para cumprir sua função social, não pode se reduzir à frieza da letra legal. Como alertou Miguel Reale, o Direito é fato, valor e norma. A técnica jurídica deve caminhar ao lado da moral, da equidade e da consciência ética. Sem isso, transforma-se em ferramenta de dominação, e não de emancipação.
O professor deste conto representa não apenas o mestre da sala de aula, mas o guardião do bom senso, da lógica e da justiça. Já o advogado, mesmo munido de conhecimento, falha ao esquecer que a moral precede a astúcia, e que a advocacia é uma profissão de fé na justiça, não um instrumento de exploração da linguagem contratual.
Que esse poço, simbólico, nos lembre que o mais profundo na vida não é a letra da lei, mas a ética que nela deve jorrar.
Raimundo Mendes Alves – Advogado criminalista e Procurador aposentado
DÓLAR COMERCIAL: R$ 4,9160 DÓLAR TURISMO: R$ 5,1070 EURO: R$ 5,7550 LIBRA: R$ 6,6660 PESO…
Professores e estudantes universitários argentinos protestam, nessa terça-feira (12), contra os cortes orçamentários na educação…
1- A CBF divulgou na segunda-feira os dias, horários e locais dos jogos semifinais…
Imagine descobrir, depois de um diagnóstico de câncer, que a doença não surgiu apenas por…
O Ministério Público do Rio Grande do Norte vai investigar um suposto caso de racismo…
Moradores da Comunidade Nossa Senhora das Virtudes II, no bairro do Jaguaré, zona oeste de…
This website uses cookies.