EM RITMO DE CARNAVAL – Flávia Arruda

EM RITMO DE CARNAVAL – 

O Carnaval é aquele momento em que o Brasil se lembra de sua vocação natural: ser plural, diverso e, acima de tudo, festeiro. Em Salvador, o trio elétrico arrasta multidões como se fosse uma locomotiva de alegria, no Rio, o desfile das escolas de samba transforma a avenida em ópera popular, já em Recife e Olinda, o frevo desafia a gravidade e na Amazônia o boi-bumbá mistura batuque e floresta, lembrando que a festa é tão vasta quanto o território.

No Rio Grande do Norte, a folia tem sotaque próprio e sabor de terra, mar e, claro, camarão. Em Natal, os blocos se espalham por Ponta Negra, Redinha, Tirol e Petrópolis, misturando axé, samba e forró num caldeirão de ritmos que só o potiguar entende. Em Caicó, o Bloco do Magão arrasta multidões com a irreverência sertaneja, e o povo grita “oxente, cuida que tá meidiinha!” entre uma marchinha e outra, mostrando que o carnaval também pulsa forte no Seridó. Já em Pirangi, a festa acontece com os pés na areia e o mar como cenário, lembrando que a alegria potiguar tem o sabor da brisa e da maresia.

E como todo bom carnaval também passa pela mesa, não falta a macaxeira frita para matar a fome do folião, a carne de sol com queijo coalho para dar sustança, e a tapioca recheada que aparece como lanche salvador na madrugada. O cheiro de milho cozido e de feijão verde temperado se mistura ao suor da dança, lembrando que a culinária também é parte da celebração.

É um espetáculo de cores e vibrações que não cabe em uma só fotografia, ou um só lugar. O folião se fantasia de super-herói, mas sua verdadeira missão é sobreviver à maratona de blocos. Há quem vá de pirata, de astronauta, de personagem inventado na hora e todos se encontram na mesma cadência de celebração. A diversidade se revela não apenas nas fantasias, mas nos improvisos, cada um inventa sua própria forma de brilhar, e o resultado é um mosaico de criatividade coletiva.

Mas, entre um confete e outro, é preciso lembrar que a folia não é licença para irresponsabilidade, falta de respeito e coisas do tipo. “NÃO É NÃO” deveria ser o refrão oficial de todos os blocos, repetido com mais força que qualquer marchinha. Beber e dirigir é a coreografia que ninguém quer ensaiar. Camisinha não é acessório opcional, é fantasia obrigatória. E água mineral, além de marchinha, é questão de sobrevivência, porque o corpo humano não funciona só à base de cerveja e glitter.

O Carnaval é também um teste de limites. O folião acredita que pode dançar até o amanhecer, mas o corpo cobra juros altos. A ressaca não é apenas física, é também moral, isso, quando o sujeito percebe que a fantasia improvisada não combina com a reunião da segunda-feira, pós carnaval. É nesse momento que se descobre a maior verdade da festa: o Carnaval não é o último. Haverá outros, haverá amanhã. E a alegria só faz sentido quando pode ser repetida sem arrependimentos, não é verdade?

Então, que cada bloco seja lembrança boa, que cada confete seja memória leve, que cada batida seja celebração da vida. Que o Brasil continue sendo esse país que, ao menos por quatro dias, consegue esquecer suas mazelas e se reinventar em purpurina.

Um ótimo Carnaval a todos, com brilho, com diversidade, com consciência. Porque a festa é linda, mas só vale a pena se houver amanhã para contar a história.

 

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros “As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim”, crônicasflaviaarruda@gmail.com

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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