E NÃO SE VENDE UMA AMIGA –

Para muitos, o melhor amigo do homem é o cachorro. Não para Vinícius de Morais, que dizia: “O melhor amigo do homem é o uísque. O uísque é o cachorro engarrafado”. Não vou entrar nessa briga. Sou suspeito. Não tenho mais cachorro, e há sempre um lugar reservado, no meu círculo de amizades, para um bom malte.

Mas a verdade é que, nos últimos tempos, sobretudo quando estou no Reino Unido (terra dos melhores “malted and blended whiskies”), meu melhor amigo não tem sido nem um nem outro. Tem sido Agatha May Clarissa Mallowan (1890-1976), mundialmente conhecida como Agatha Christie, com seus deliciosos romances policiais, que trouxe de quebra as curiosas personagens Hercule Poirot e Miss Marple para o meu círculo íntimo de amizades.

Claro que, na solidão de Londres, me cairia melhor uma dama mais nova, de carne e osso, de preferência. Sei, também, que muitos intelectuais (ou pretensos) têm algum preconceito com minha amiga. Paciência. O segredo da felicidade está em satisfazermo-nos com o que alçamos. E, por aquelas bandas, eu tinha “The Mysterious Affair at Styles” (1920), “The Murder of Roger Ackroyd” (1926), “Lord Edgware Dies” (1933), “Murder on the Orient Express” (1934), “Murder in Mesopotamia” (1936), “Death on the Nile” (1937), alguns dos maiores êxitos romanescos de minha amiga, como informa Mark Campbell em “Agatha Christie” (Pocket Essential ed., 2005).

Contudo, faltava-me um dos mais interessantes títulos de Agatha Christie: “Ten Little Niggers” (1939). E registro que, recordando o título em português de minha adolescência (“O caso dos dez negrinhos”), sempre que podia, em qualquer sebo/livraria por que passava, espiava, procurando por “Ten Little Niggers”. Mas não o achava.

O fato é que o enredo de “Ten Little Niggers” é excelente, com localização sinistra e personagens estereotipados. Dez pessoas são convidadas para uma estada em uma mansão na ilhota chamada Nigger/Indian Island (aparentemente inspirada em Burgh Island, de fato localizada na costa de Devon). Os convidados chegam, entusiasmados, em uma tarde de verão. Mas todos têm algo a esconder. “Crimes” que a Justiça dos homens não foi capaz de punir. E logo tudo muda, a começar pela vinda de uma tempestade que os deixa isolados na pequena ilha. Um a um, todos são indiciados, sumariamente condenados e mortos.

Para os amantes do Direito, de logo se vê a curiosidade de “Ten Little Niggers”, a começar pela atmosfera de investigação/audiência/julgamento, com todo um vocabulário próprio dos tribunais. Entre as personagens, há até um juiz aposentado (conhecido, à sua época, pelo pendor em mandar “seus” réus à forca), que “preside” várias passagens/audiências. Mesmo para aqueles que buscam não só diversão em romances policiais, mas um suposto “conteúdo”, a obra nos faz pensar até que ponto é salutar uma justiça absoluta (que pode significar apenas um sádico prazer em assistir a dor alheia) e em quem estaria apto a provê-la.

Mas “Ten Little Niggers”, para além de suas páginas e de sua qualidade intrínseca, ganhou ares de obra polêmica, especialmente em tempos de defesa do politicamente correto. A questão está mais no seu título e menos no seu conteúdo (que teve de ser ligeiramente alterado, o que causou a indignação dos defensores da liberdade de expressão). Inspirado em antiga canção inglesa/americana, o título foi considerado racialmente ofensivo e teve de ser mudado (sob pena de não ser mais indicado em escolas, universidades, etc.), primeiramente, nos Estados Unidos e, em seguida, no Reino Unido, para “And Then There Were None” (tendo sido ainda adotados os títulos “Ten Little Indians” e “The Nursery Rhyme Murders”).

Aí estava a explicação para minha busca sem sucesso por “Ten Little Niggers” em livrarias e até em sebos. Só esbarrava, sem dar qualquer atenção, com “And Then There Were None”. E a coisa tem chegado a um ponto que, procurando no site Amazon, achei uma edição de “Ten Little Niggers” por 730 libras esterlinas (bem mais de 2000 reais). O meu exemplar, antigo, mas conservado, comprei, com muita sorte, em um dos sebos de Charing Cross, por 3 libras.

Eu já digo: não vendo a minha preciosidade nem por 731 libras. Afinal, não se vende uma amiga.

 

Marcelo Alves Dias de Souza – Procurador Regional da República, Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e Mestre em Direito pela PUC/SP

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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