DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS –

 

Meu sentimento de revolta não foi diferente daquele que chocou grande parte da humanidade ao assistir aos atos de atrocidades perpetrados contra ucranianos, pela Rússia, na denominada “operação especial” de Putin.

Embora admirando a onda de solidariedade que tomou conta do Ocidente, eu, porém, lá no fundo da alma estranhava a falta de compaixão para com tantos outros refugiados de guerras na África e no Oriente Médio.

Eis que chega o biólogo, Tedros Adhanom, um filho da Eritreia – sim, existe esse país no Mapa Mundi, localizado no chamado Chifre da África -, ex-Ministro das Relações Exteriores da Etiópia e atual diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, para colocar o dedo na tal ferida a qual me referi acima.

Seu desabafo tratou do racismo chocante para com humanos de cores de peles diferentes daqueles descendentes da raça ariana. Impressiona a solidariedade de toda a Europa, ligada ou não a OTAN, bem como a de outros países da América do Norte e do Sul, com o que acontece na Ucrânia e no seu entorno.

Algo bastante diferente do tratamento dado a dezenas de outros conflitos armados que estão em curso no mundo com muito menos apelo, porque estão distantes do coração do Ocidente – a Europa –, porém afetando outros povos com barbáries em proporções idênticas ou superiores às sentidas na pele do povo ucraniano.

Tais guerras não merecem a ampla cobertura da imprensa internacional por uma única razão: não existe público nem audiência para selvagerias perpetradas contra pessoas de peles escuras ou mestiças.

Muito justo que parte da humanidade esteja se comportando dessa maneira fraterna ante o conflito em curso na Ucrânia. Melhor seria se também agisse com o mesmo espírito benevolente com as centenas de refugiados e deslocados que chegam ao Velho Continente pelo Mediterrâneo, onde muitos deles largados à própria sorte, soçobram no oceano.

Segundo dados da ONU são 70 milhões de pessoas atualmente deslocadas em razão de conflitos armados. Isso em mais de 30 países que vão do Afeganistão a Mianmar, do Iêmen à Etiópia, Somália, Síria e tantos outros.

Mesmo na Ucrânia o racismo vai além das medidas. A tal ponto chega essa irracionalidade, devido a discriminação racial, que fez o corpo diplomático da União Africana afirmar ser “chocantemente racista” ver cidadãos africanos impedidos de fugir da agressividade da guerra, como os demais ucranianos, em razão da cor da pele.

Fica o dito pelo não dito quando o assunto é racismo. Sim, porque em declaração conjunta a OMS, FNUAP e UNICEL afirmaram ser ato de “crueldade inconcebível” agredir, em guerras, bebês, crianças, mulheres grávidas e aqueles que sofrem de doenças.

O oposto dessa conceituação é relatado a todo instante em furos jornalísticos na imprensa internacional. Hospitais, escolas, creches, abrigos antiaéreos, nada escapa da precisão cirúrgica dos mísseis russos.

A população da Eritreia, país onde nasceu Tedros Adhanom, vive abaixo da linha da pobreza. Ele conhece de perto a miséria, a fome, a crueldade e o racismo, e pode falar de cátedra sobre qualquer desses assuntos. Entretanto, uma “andorinha só não faz verão” nem consegue evitar a prática de “dois pesos e duas medidas”, quando se trata de racismo.

 

 

 

 

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro Civil

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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