DO HOMEM QUE CALCULAVA – José Delfino

DO HOMEM QUE CALCULAVA –

Quando estudei na Europa o meu orientador de tese , ao contrário do que eu esperava, foi um físico. “Sir” William Mapleson. Viveu exatos 92 anos . Trocamos cartas por quase quatro décadas. Parte da última, não respondida , me remeteu a Norberto Bobbio no seu “Tempo da Memória”.
“Desde Janeiro deste ano mudei de endereço. Estou num asilo para idosos. Eles aqui tomam conta muito bem de mim. Quando aqui cheguei ainda estava bastante ativo. A minha condição física, entretanto, rapidamente deteriorou. Tive que parar de dirigir. Passo, em parte, o meu tempo recordando o que passou, a ler jornais, rever os meus velhos diários (de 1941 até agora) e fazendo palavras cruzadas e sudoku. Perdi a trilha das nossas últimas correspondências, portanto me perdoe se falhei em elogiar, sentir, ou comentar algum incidente das nossas vidas durante 2016 e 2017. Sempre me lembrarei dos nossos velhos tempos. Tudo de bom. Sinceramente seu, Bill. Ao lê-la, fiquei com a impressão de que ele já antecipava o seu fim.
A nossa forma de raciocinar, se situava em campos não muito bem afinados, em função das características das nossas profissões. Tudo nele era sucinto, direto, matemático. Anglicano ferrenho, temperava , às vezes, sua argumentação com um “quê” místico e cósmico.
Começava de maneira simples, mas na medida em que começava a elaborá-la, logo ela escapava ao alcance que ele queria dar à minha compreensão. Alternava o olhar do papel, onde desenhava números e garatujas, aos meus olhos. Como se estivesse num transe continuamente interrompido.
A qualidade do raciocínio dele era abissal em relação ao meu. E eu ali fingindo que estava captando bem a moral da história. E continuávamos trocando ideias, imaginem só.
Certa vez, veio com essa. Suponhamos, José, que um adulto médio possa ser reduzido em escala proporcional por um processo de redução fotográfica tridimensional. O adulto miniaturizado assim resultante aproximar-se-ia do recém-nascido se o processo fosse interrompido quando a altura estivesse reduzida a 1/3 da altura do adulto , por exemplo de 1,8 m para 0,6 m.
A superfície do corpo estaria então reduzida ao quadrado de 1/3, isto é a 1/9 da área do adulto. O volume e portanto o peso corporal estaria reduzido para o cubo de 1/3, isto é para 1/27 avos. Agora, imagine o grau de aproximação que esse adulto miniatura assemelhar-se-ia a um recém-nascido real.
Se admitirmos o peso de 3,3 kg para um recém-nascido médio e de 70 kg para um adulto médio a proporção real de pesos corporais seria de 1:21 e não de 1:27. Se as alturas médias forem aceitas como 0,5 e 1,75 m, a proporção real das alturas seria 1:3,5. Esses números levam a áreas de superfícies de 0,2 e 1,85 metros quadrados que representam uma proporção real de exatamente 1:9 , igual a obtida pela miniaturização do adulto.
Assim, este adulto miniatura teórico representaria uma aproximação muito aceitável do recém-nascido, embora um recém- nascido real tenha uma altura relativamente um pouco menor e seja um pouco mais gordo do que um adulto proporcionalmente reduzido.
Me faltou fôlego e argumentei. Me parece algo inédito o que você diz, prof. Engano seu, esses princípios gerais foram nitidamente estabelecidos por Galileu em 1638 e a relação existente entre comprimento, área e volume foi enunciada por Arquimedes.
Dê um pulo na biblioteca e leia uma abrangente e moderna exposição do tema , em relação a animais em geral. Um artigo do Schmidt-Nielsen.
A visão da matemática, meu caro, é solene. Se corretamente observada, ela possui em si não somente a “verdade” mas também uma suprema “beleza” fria e austera. Às vezes não corroborada na prática. Sem os belos ornamentos da música, do poema e da pintura. Mas de sublimidade pura.
Uma ligeira pausa na conversa. Pra quem se dedica ao estudo da física e da matemática, o que não é o meu caso, pensei . Por falta de conhecimento e abstração adequados, a minha relação com fórmulas matemáticas é um tanto obscura. Continuo considerando-as não tão belas como a Quinta Sinfonia do Beethoven.
Continuei calado.
Me pareceu ele ter entendido o meu breve silêncio de desconforto. E finalizou. Leia o artigo. Vai abrir mais a sua mente. E contribuir para melhorar a redação da sua tese.
Próxima semana voltaremos ao assunto. Lembre-se que Deus sempre organiza as coisas assim. Cara estranho, eu achava. O tempo curou o meu mal. Hoje o entendo bem.
José Delfino – Médico, músico e poeta
As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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