DO DIA A DIA –

Ah ! A rotina , essa danada . Quando eu era Anestesiologista , eu achava-a um tanto sufocante . Acordar, escovar os dentes , tomar banho , trabalhar e voltar pra casa. Tomar o café da manhã , almoçar , jantar e, nesse afazer , muitas vezes ser interrompido. Viver no “front” das batalhas dos centros cirúrgicos. Diversão , só nos fins de semana e olhe lá.
Na linha de frente todo santo dia , contabilizando uma porrada de sustos ao longo do ano: enfrentar e solucionar incidentes anestésicos e cirúrgicos não é tão fácil assim. “Métro, boulot, dodo”, como dizem os franceses. Aquela rotina diária monótona e repetitiva .
Como a maioria faz no mundo inteiro , “viver para trabalhar”. Mas não só trabalho braçal, era o meu caso. Estudava um bocado pra me manter atualizado no meu ofício de médico e professor , preparando aulas , conferências , palestras , esboçando ideias para “papers” e “books”.
Costumava dormir de rede , cuja principal vantagem ainda é abrir mão do criado-mudo . Debaixo dela sobre um pequeno tapete persa surrado , adquirido na Turquia no século passado ,uns dois ou três livros dormindo de olhos e bocas fechados , prontos a conversarem comigo , quando vontade eu tivesse.
Um telefone , daqueles de fio. Uma carteira de cigarro e um isqueiro. Um caderninho e uma caneta esferográfica caso viesse algo à cabeça a ser anotado. E o controle remoto da TV. Saindo de casa , meu companheiro inseparável era um “bip” , (bipe) ou “pager”. Os celulares ainda não existiam.
O telefone tocava na minha casa, digamos às seis horas da manhã , bem na hora do D2. “Venha correndo que a barra tá pegando”. E lá ia eu na esperança de salvar uma vida , um petardo acontecendo aos meus pés. Entendam , um tiro certeiro , também, nos meus hábitos intestinais. Sempre foi assim .
Até que chegou a santa pandemia. Ao contrário dos caras do “Decamerão” , continuei na cidade. Deu sorte , escapei. Não voltei a exercer a profissão de médico . Deu certo . No final tudo dá certo. Excetuando-se a atividade de profissional autônomo , não adiantou muito chutar o pau da barraca.

Meu trabalho braçal continua, só que tocando violão clássico . Continuo estudando-o bastante , só pra consumo próprio. Escrevendo , lendo , viajando , vendo filmes mais amiúde, fazendo diariamente longas caminhadas , ouvindo música no meu headphone Bose.

Foi criada uma nova rotina na minha vida. Mas , pelo menos, agora sou dono integral do meu tempo. Ah! a Rotina , essa danada . Continua faltando tempo pra fazer tudo o que eu gostaria de fazer. Se é que o tempo existe . No fundo, ele continua sendo uma abstração. Impossível viver sem o meu relógio de pulso .
José Delfino – Médico, poeta e músico
As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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