DE TERNURA E RECONHECIMENTO ANTIGOS – José Delfino

DE TERNURA E RECONHECIMENTO ANTIGOS –
Não sei se já lhe aconteceu. Aquele instante, meio deitado, meio acordado, meio dormindo, a cabeça vazia se entregando ao sono e aos sonhos, que é nessas horas que eles acontecem. Quando o gatilho do pensamento, sem ter nem pra que, dispara um clarão súbito. Feito um caleidoscópio quando os fragmentos de vidro, refletidos sobre o jogo de angulares espelhos, produzem um número infinito de combinações de imagens e o rolo do filme começa, em contra-fluxo, a entrar em livre curso num atônito flash-back em preto e branco. Igual ao que fui induzido ao ver “Quando voam as cegonhas” e “A balada do soldado”, quando, ao final , o recruta recebe um tiro no meio na testa e toda a sua vida dispara em imagens rotantes, um afazer feito em círculos, a sua existência exibida em final retrospectiva.
Dizem que isso ocorre no exato momento que morte chega. Comigo aconteceu no exato instante de um aviso sonoro do meu Iphone, vindo de algum amigo virtual e me despertou, que hoje em dia as coisas acontecem assim. Foi quando ele apareceu. A primeira vez que nos encontramos, a imagem do velho Land Rover, seus dedos friccionando o linho do meu paletó, dizendo que ele não era adequado ao outono europeu, o final de tarde quando nos recebeu com chá e bolinhos e nos levou a conhecer o jardim e o pomar da sua casa. Veja como é bela a lua cheia esta época do ano vista dessas escarpas aqui de Cardiff. Fique tranquilo, a tese está toda amarrada, eles não irão lhe fatiar em pedaços, nas cartas posteriores enviadas ao Brasil quando sempre repetia: Quando vai começar a publicar os seus livros? Estímulo suficiente para eu fazer o “Controvérsias em Anestesiologia”, com o prefácio por ele escrito em Inglês, acompanhado de um bilhete dizendo: “Se não lhe agradou, não hesite em me fazer saber, pois seria um prazer refazê-lo”.
Imagine um cara, considerado um dos pilares da Anestesiologia moderna, um “Sir”, que mereceu o título de Cavaleiro do Império Britânico, colocar em um prefácio para um desconhecido aluno do terceiro mundo: Não iria compreender tudo que aí está pois não entendo o Português, mas vindo de você é o suficiente pra mim. Até o dia que fui visitá-lo já caquético, esquálido, à beira da inconsciência, que o câncer naquele tempo destruía as pessoas assim e a minha intenção de voltar a vê-lo morreu na sala de visita. Corri do quarto ao escritório, abri o editor de texto e pensei. Talvez fosse mais fácil, ou mais cômodo, que a opção fosse escrever nos conformes de qualquer homenagem ou agradecimento: a data de nascimento, o lugar, o nome dos pais, um pouco da infância, com ênfase natural para as dificuldades mais humildes, todas as glórias do adulto, do cientista, do estudioso.Talvez fosse o melhor caminho. Não para mim, seu aluno. Porque considerar-se discípulo seria muito. Sim, seu aluno, pois a vaidade não poderia ostentar mais do que isso. De quando, um dia, cheguei na Inglaterra arrastando a pele morena, a língua latina, o rosto de nordestino, o jeito de ser de quem, espantado, descobria o mundo.
Mas, preferi assim. Sem datas. Sem nomes. Sem a precisão dele, aquele inglês solene, austero. Preferi assim, como se naquela hora, pela saudade e a recordação, a intimidade fosse possível. Como se a manhã londrina, tão cinza e tão monotonamente igual, terminasse num gim legítimo, no buquê do seu perfume que me lembra o rosto rosado dos ingleses. E por que não fazê-lo assim, se o seu Império se fez, sempre, pelo valor da sua sabedoria porque ele, antes de tudo foi um sábio? Por isso não cumpri o desenho monótono das molduras pré-fabricadas. Não passei com o meu olhar de lembrança, o risco sobre o já riscado. Não cobri, não avivei o quase já esmaecido retrato daquele rosto grave. Se vivo, hoje teria 103 anos.
Apenas o trouxe como se, pela lembrança tivesse eu a força do resgate. De repente, era eu que estava ali, diante dele. O orientador que todo estudante gostaria de ter. De conhecer, de fazer uma pergunta qualquer. Diante dele era como se todas as perguntas fossem possíveis e tivessem resposta. E como era estranho saber que sempre teria o cuidado de não afirmar nada facilmente, tão facilmente assim. É que eu ainda não sabia (só suspeitava) que ele sonhava, todas as horas, o sonho da ciência pelo inenarrável milagre do saber.
José Delfino – Médico, músico e poeta.
As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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