DE SAÚVA À MORDOMIA –

Somos um povo extraordinário. A nossa alegria, espírito de solidariedade, espontaneidade e criatividade diante das intempéries e dificuldades da vida é de deixar qualquer estrangeiro de queixo caído. Guardadas as devidas e elogiáveis proporções, bem que merecíamos políticos melhores para sermos um dos maiores e bem estruturados, social e economicamente, países do planeta.

Somos a terra Brasil que a mãe natureza livrou de desastres naturais pavorosos comuns em outras nações. Situado nos trópicos, bonito e abençoado por Deus, poderíamos fazer melhor uso de tais benesses. Reza a lenda que em 1883, em Turim, na Itália, o salesiano João Bosco teve um sonho: “Entre os paralelos 15 e 20 do globo terrestre, surgirá uma nação rodeada de magia e lá jorrará leite e mel”. Nessa localização geográfica foi inaugurada Brasília, em 1961, a nova capital do Brasil.

Quanto aos jorros de leite e de mel, transcorridos 140 anos, ficaram apenas nos sonhos de Dom Bosco, mas nem por isso perdeu-se por completo a esperança de que esse milagre ocorra em algum dia de alguma era – e ponha-se esperança nisso!

  Existe um bordão que trata da devastação causada pela formiga-cortadeira – quando o inseto proliferava de forma exacerbada no país -, atribuído ao escritor paulista Monteiro Lobato: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil.” Na verdade, o autor da frase foi o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853). Acontece que, do século XIX até hoje, nem o Brasil acabou com a saúva nem vice-versa. Mas o bordão ficou servindo para todo tipo de analogia.

Pois bem, lanço mão do mesmo clichê para preconizar que: ou o Brasil elimina a série de privilégios e mordomias concedidos a membros dos três poderes federativos ou jamais respiraremos o ar da igualdade de direitos humanos que tanto apregoam. Porque, sem controle, uma elite alarmante de milhares de servidores federais desfruta de mordomias inimagináveis para os demais funcionários do serviço público.

Auxílio moradia, auxílio educação, auxílio saúde para o titular do cargo privilegiado e seus familiares, carro de luxo com motorista, celular com gasto ilimitado, motorista, combustível, além de salários diferenciados e aposentadorias nababescas bem acima das perspectivas do barnabé comum.

A gastança é infinita e incontrolável. Por que 14º e 15º salários somente para alguns? Qual a razão para financiamentos bilionários para inúmeros partidos políticos, algo inexistente em outros países democráticos? Dá para engolir semana de três dias e mês de apenas três semanas de trabalho? E o que dizer da economia obtida se limitados à metade os incontáveis senadores, deputados e vereadores de nossa amada República.

Reduzir as mordomias seria uma atitude que exaltaria qualquer governante. Caso, um político resoluto iniciasse agora tamanha tarefa, o grau de dificuldades a enfrentar ante o arraigamento de tais privilégios nos três poderes constituídos, seria incerto precisar a conclusão do saneamento. Por maior que fossem as colônias de saúvas no trabalho de cortar os excessos, maior seriam os batalhões de usufrutuários das vantagens em alerta contra os ataques inimigos.

Por isso, minha gente: “Ou o Brasil acaba com a mordomia ou a mordomia acaba com o Brasil!”

 

 

 

 

 

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro civil

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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