DE GEORGE –

De um certo modo, ele estabeleceu a evidência que o jazz americano poderia não ser necessariamente negro. E que os rabinos nas sinagogas e os ciganos nômades estariam mais perto dele do que seja quem for na África. Ele, um judeu, de repente afeito por força da sua religião a um certo isolamento espiritual. Que talvez tenha feito com que se estreitassem em seu universo musical a fronteira entre a música popular e a erudita. Sofisticando uma e desmistificando a outra. Daí a complexidade técnica de algumas de suas composições parecer simples ao deliciar ouvidos mais ligeiros. Simples ao ponto e suficiente ao sobrepujar ferrenhos preconceitos eruditos. Na clara influência do “clássico” na sua música está presente o som ancestral do negro americano. A “Raphsody in Blue”, é um exemplo pontual. É música negra revestida com roupagem europeia. A ópera “Porgy and Bess”, composta a partir do livro homônimo de Dubose Heyward, traz também no seu bojo a influência da música folclórica negra. Ouvidos atentos identificarão que com exceção das árias “Summertime”, “ Bess you is my woman now”, “I love you Porgy” e “My man´s gone now”, as restantes foram compostas a partir de temas baseados em ‘spirituals’ e canções evangélicas. Como “I got plenty of nuttin”, “ It ain´t necessarely so’ e “ A woman is something a thing”. Conotações idênticas poderiam ser aplicadas a sua “ black opera” de câmara “Blue Monday” e ao “An American in Paris”. Claro está que muitas das suas peças não têm nada a ver com “jazz”.

Classificadas que estão como música clássica moderna. Os madrigais “ The jolly tarr and the maid”, para soprano e tenor e “Sing of Spring”, para coro e piano. E as suas chamadas canções de arte , como “ By Strauss”, feita para o musical “ The show is on”, onde é capturado o estilo opereta de Strauss e Lehar. E em “ In the Mandarin´s Orchid Garden”, bem mais ambiciosa do que as canções usuais da Broadway dos anos 20. A preocupação política rondava sua obra. Talvez uma afirmação inconsciente de sua origem semita. No entanto, é na música popular , onde não foi menos soberbo , que se exterioriza sua empatia com o público em geral. A sua notória popularidade é corroborada pelo fato das 18 canções do seu “songbook” de 1932 ainda continuarem vivas na boca do povo em todo o mundo. No auge da fama temia que suas composições fossem esquecidas. Que o advento do fonógrafo e do rádio levariam os seus sucessos à saturação. Afirmou que “elas morreriam jovens … não suportando o peso da sua popularidade”. Foi uma das razões que o levaram a publicar versões simplificadas. Feitas para “… menininhas com mãozinhas pequeninas , que não progrediram muito em seus estudos”.

Outras foram mantidas em suas versões originais. Algumas bem difíceis de serem bem interpretadas. Vitimado por um câncer de cérebro, que o destruiu em pouco tempo, iniciou a trilha da imortalidade aos 38 anos de idade. Ave George Gershwin!

 

 

 

 

 

José DelfinoMédico, poeta e músico
As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

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  • Pois é meu amigo Delfino, nada como conhecimento musical e uma sólida base literária.
    Isso você tem de sobra e, além do mais, sensibilidade é o que não falta.
    Perfeita análise da obra de Gershwin.
    Parabéns

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