DA LINGUAGEM OCULTA DO SOM – José Delfino

DA LINGUAGEM OCULTA DO SOM –
É difícil intervir no gosto de cada um com explicações técnicas porque a orelha me parece ser o mais reacionário dos órgãos sinestésicos. Mas é que um som harmônico, rimado, articulado,  propositalmente construído para criar determinados e preconcebidos efeitos nas pessoas tem os seus macetes de construção. Até chegar ao ponto de agradar o ouvido e levar ao prazer que vai dar no jardim secreto que existe em cada um de nós. Daí o inescapável e desde sempre bem sucedido, casamento do erudito com o popular. Que são praticamente duas faces da mesma moeda. A rigor, quase a mesma coisa. Questão só de um pouco mais de elaboração, polimento e requinte. Daí eles se entrelaçarem.
Daí a paciência de compositores e críticos em debater, ouvir, reler partituras, modificar arranjos, tentar por em ordem o que poderia ser chamada a linguagem secreta da música. O embasamento e a solução da harmonia oculta nas composições que faz o consumidor final achar “aquela” peça tocante, se emocionar, gostar “daquilo” sem, às vezes, nem saber bem a razão. Determinados detalhes que fazem o deleite e suas associações mentais instintivas aflorarem sempre quase de forma irracional. A música, seja ela qual for, excluídos os plágios, tem muito do casual. Flagrei certa vez no tema musical do “Rela-bucho”, forrozinho que tanto causou sucesso na lagoa Manoel Felipe nos anos 60, um trecho da partita em ré para violino de Bach. Se coincidência ou não, só Deus sabe.
Tomemos, portanto, para efeito de raciocínio, a música dos Beatles, essa unanimidade eterna, que de tanto ouvi-la, praticamente enchi o saco, ressentido inclusive da pomposa exaltação que as suas músicas ainda despertam no coração dos meus amigos de geração. Talvez porque não mergulharam a fundo na obra, simplesmente a ouviram, o que seria o óbvio e o esperado.  “Continuamos a ouvir, ainda; os Beatles, são geniais”, como se diz. A releitura da obra deles é coisa que sempre me impressiona. Mas o fato é que estou cansado delas. Uma enxurrada de novas visões surgiram ao longo dos anos. Beatles-Country abrasileirada, Beatles-Choro, Beatles sob a ótica da música do altiplano. Até Beatles em cantochão existe. Sem falar dos inúmeros arranjos sinfônicos.
Eles emularam tudo apesar de terem afirmado que beberam na fonte de Chuck Berry e viveram a cena musical do rock americano de forma quase neurótica. Belas composições próprias “I Want to Hold your Hand “She Loves You”. Lindas reinterpretações de “ Long Tall Sally “ Roll Over Beethoven”, “ Kansas City”, “Till There Was You”. Nos diversos estilos de composições que se seguiram, “Obladioblada” é um rag time, já perceberam? “Mr. Moonlight”, um spiritual, nas entrelinhas. “Here There and Everywhere”, “Good Day Sunshine”, “Michele”, “Eleonor Rigby”, “Martha”, “Julia”, são peças memoráveis comparáveis às de compositores das grandes eras da canção como Monteverdi , Schumann e Poulenc. Aliás, Poulenc é um dos compositores clássicos mais copiados ao longo do tempo
E aí está a linguagem secreta posta em prática com o solo de piano do quinto Beatle inserida em “In my Life” que realça ainda mais a beleza da peça. “Here There and Everywhere” uma vez concluída alcança dimensões memoráveis, devido à diminuta mudança harmônica que faz toda a diferença quando entoam “ the wave of her hand” tão surpreendente mas tão certa como a do madrigal de Monteverdi “A un giro sol” se é que poderia se comparar, mas faz sentido. A notação de rítmo de “Good Day Sunshine” não chama muito a atenção até se notar que ela é feita em tercinas sobre os compassos onde eles fazem um processo tão complexo parecer simples a um ouvido amador. “Michelle” muda de clave na segunda cadência (que é também a segunda palavra) como Poulenc fazia amiúde. O ponto é que eles fizeram também na segunda cadência. Coincidência ou não é que eles a modificaram e funcionou. O genial não consiste em copiar, mas ter a sensibilidade que em determinadas circunstâncias a solução funciona.
Em “Norwegian Wood” a música é um movimento arqueado crescentemente desarticulado, uma pirâmide invertida formando um zigue-zague, o que torna a canção excepcionalmente bela e não apenas original. As harmonias mais ousadas como ocorre nas dissonâncias de “I Want to Tell You” é basicamente impressionista e lembra Ravel nas suas “Chansons Madécasses”. As melodias de “Fixing a Hole” ou “Michelle” são requintadamente desenhadas, mas evoluem de forma padronizada, nas terças e sétimas diminutas do blues, também outro detalhe digno de nota. Belos contrapontos aparecem, como em certas partes de “She´s Leaving Home”, não mais complexos do que “Three Blind Mices” e não tão livres como “Got to Get You Into my Life”, como se fosse um Bach em liberdade, compondo sem a elaboração exigida pelos rigores da escrita de partituras no século XVIII.
De uma maneira geral, a questão não se cifrava tanto na canção, mas na maneira como por eles ela era cantada. Da mesma forma que Edith Piaf e Billie Holiday, eles conseguiam tornar soberbo o medíocre. As letras de Lennon e Paul são inteligentes e oportunas, e bem ajustadas às músicas, também. Sem as músicas elas não seriam melhores do que as canções de Cole Porter, que continuam belas sem letra alguma. Seria isto o que tornaria tão bons os Beatles? Os poemas podem ser politicamente influentes (“She´s So Heavy e “Lucy in the Sky with Diamonds”) e ninguém pode provar que a música significa coisa alguma. A música deles, que é presumivelmente adaptada à letra e não ao contrário, funciona muito bem. E é aí onde residiria o segredo do encanto dela. Eles perverteram a naturalidade com sutilezas. Pervertendo a naturalidade eles construíram coisas nunca efêmeras, enquanto os concorrentes a perverteram com afetação. Copiaram o esboço, não conseguiram copiar a catedral.
A perfeição pode ser estéril. Quem se recorda das músicas do “Tin Pan Alley” ou do “Jefferson Airplane” quando separada das letras? A surpresa é que, também, os Beatles fizeram um processo simples parecer tão complexo, e ainda assim graças a essas “torções” ser logo entendida por qualquer amador com “senso rítmico”. O diabo é que quando se discute sobre os Beatles nunca eles são relacionados a outras bandas, mas com os aspectos de si mesmos, como se eles fossem a definição completa de um movimento global (nada mais errado) como se em sua curta carreira eles tivessem (o que é verdade), como Picasso e Stravinsky, ultrapassado e dispensado diversos períodos. A harmonia em sua forma mais ousada, como ocorre nas insistentes dissonâncias de “ I Want to Tell You” é basicamente impressionista. O ritmo se torna às vezes imaginoso, como em “Good Day Sunshine”, que dá a impressão de ter sido feita a la Bartok quase um século depois. A inseminação de certos detalhes embasados em música erudita reforça a conclusão sobre a proximidade do “popular” ao “clássico”. Eis a essência da linguagem secreta da música. A necessidade dela não é sociológica nem nova, mas artística e antiga. Sempre a renovação do prazer.

José Delfino – Médico, músico e poeta.

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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