DA DIFICULDADE DE ENCARAR CADA ANO – José Delfino

DA DIFICULDADE DE ENCARAR CADA ANO –
Muito me incomoda falta de liberdade . Faz-me mal a falta de sentimento e noção de dever de estado. Repugna-me o regime totalitário que implica distribuição de pobreza. Nele, a história implacavelmente ensina, uma minoria controla o poder, se locupleta e as pessoas, sob o pretexto de igualdade social, são brutalmente oprimidas. Caso estranho de regra sem exceção na história do mundo. Sentimento parecido me toca em relação aos regimes ditos democráticos do terceiro mundo e sua retórica demagógica Republicana onde os políticos, ao arrepio de Platão e Marx, priorizam a alternância de si próprios e dos seus, em lugar de servirem com dignidade o país.
Não chegamos a ser o país mais inculto do mundo, nem estamos entre os mais pobres, mas entre os socialmente mais tristes. E essa tristeza vem de tempo remoto. A maioria da população eternamente exposta a uma vida insalubre e a mercê de doenças e epidemias como na Idade Média. A prestação de serviços ao estado, alguns deles essenciais, inteiramente baseado em mão-de-obra barata, em algumas situações tão miserável que mal mitiga a fome.
Por razões históricas diversas sempre os orçamentos públicos em desequilíbrio e a acumulação de dívidas flutuantes e indecentes. Grande parcela da população ignorante e sem instrução. Uma boa parte apedeuta ou analfabeta funcional fazendo política pra defender interesses particulares. Alguns oásis aqui e acolá disponíveis aos financeiramente aquinhoados. Herança atávica, ou não, somos um povo com verniz superficial de alegria. Com uma aparente bondade que engana.
Grassa a violência ,a desonestidade , a obtenção de vantagem a qualquer custo. Exemplos? Basta olhar ao redor. Uma elite social a qual incomoda o novo rico e os “intelectuais “ estes restritos ao limitado espaço físico demarcado nos bares da vida, para além do povo, ludibriado como sempre, a acreditar nos desígnios da Providência, nos sermões de resignação da Santa Madre Igreja a comandar a sua infinita miséria. Sem falar da náusea que a sobranceira e inútil riqueza ilícita de certos apaniguados do poder ostentam ou escondem. Só isto, descaradamente só isto.
Soluções ? Não as tenho. Ou melhor, teria, todos têm, mas no meu caso o exíguo espaço de uma sala cirúrgica, onde predominam tensão, dor e tristeza, onde diuturnamente estou, não seria o local adequado a tais lucubrações. Lá restaria, apenas, o médico, falível, com telhado de vidro como qualquer um, procurando acertar. Aposentado e complementando renda com o que retribuem os clientes. E pagando em dia, puto da vida, uma ruma de imposto sem retorno. E a torcer numa vida melhor pros meus filhos e netos.
Jose Delfino – Médico, poeta e escritor
Ponto de Vista

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