DA CRÔNICA DE MACHADO DE ASSIS SOBRE OS BEATOS DA ÉPOCA DO CONSELHEIRO – Luiz Serra

DA CRÔNICA DE MACHADO DE ASSIS SOBRE OS BEATOS DA ÉPOCA DO CONSELHEIRO –

Muitos seguiam o beato Manuel da Benta-Hora na corruptela de Orobó Grande, então vila do sertão baiano de Itaberaba. A cantoria amiudava, o coro devocional vinha da latada obrada ainda, apercebia-se o tom ora roufenho ora estriduloso, que assomava ao espaldar do cercado, amparo para a gente animada pelo porvir de esperança. Para muitos ali, a única. O cajá-pau, cajado de arrimo, afeito na braúna. Lá vinha ele, passos mansos. Alma nobre, quase andrajos, a abrir o caminho da luz, era o beato Manuel da Benta-Hora.

Em Crônicas d’A Semana de Machado de Assis, de 13 de setembro de 1896, lê-se este trecho: “Dizem da Bahia que Jesus Cristo enviou um emissário à terra, à própria terra da Bahia, lugar denominado Gameleira, termo de Orobó-Grande. Chama-se este emissário Manuel da Benta-Hora, e tem já um séquito superior a cem pessoas. Não serei eu que chame a isto verdade ou mentira. Podem ser as duas cousas, vez que a verdade se confine na ilusão, e a mentira na boa-fé. (…) Há muito que os espíritas afirmam que os mortos escrevem pelos dedos dos vivos. Tudo é possível neste mundo e neste final de um grande século. Daí minha admiração ao ler que a imprensa da Bahia aconselha ao governo faça recolher Benta Hora à cadeia. Pelo telégrafo deste modo: a imprensa pede ao governo mandar quanto antes que faça Benta Hora apresentar as divinas credenciais na cadeia…”

Como se vê, pelo mestre do Cosme Velho percebia-se a mentalidade dos letrados da época para com o beatério errante. No caso, ainda na crônica de Machado de Assis, idem, fluiu uma admiração ao humilde beato importunado por tão pouco. Da mesma forma com o andarilho penitente de Quixeramobim, a imprensa refletia a mesma desafeição às prédicas da esperança.

Nesse tempo, o peregrino Antônio Conselheiro errava e obrava pelo sertão de Sergipe e Bahia. Benta hora, divino tempo!

Com o tempo a exaltação ao beato Antônio Maciel cearense sua caminhada fez aflorar as melhores e sentidas letras populares do Brasil. A ver esta quadra de Patativa:

“Nestes meus verso singelos, mas de sentimentos belos
Sobre um grande brasileiro, cearense, meu conterrâneo.
Líder sensato, espontâneo, nosso (Santo) Antônio Conselheiro.”

Patativa de Assaré
Luiz SerraProfessor e escritor
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