CUSCUZ –
Casamos aos 21 anos de idade. Éramos recém-formados e nos mudamos para Bauru, interior de São Paulo, para fazermos estágio e, em seguida, o mestrado. Nossa primeira compra foi caótica. Não sabíamos quantas panelas nós precisaríamos e muito menos os tamanhos delas. Compramos duas e uma frigideira, uma forma de bolo e… faltava uma coisa: cuscuzeira!
Não tinha cuscuzeira por lá, como também não havia “vitamilho”. Descobri que a mudança de cidade ia além do sotaque, das palavras incompreensíveis e da distância da família. Tinha a ver com COMIDA.
Não achávamos farinha fina para a farofa, feijão verde, nem carne de sol. Manteiga da terra? Ninguém sabia o que era.
Lembro que assim que nosso fogão chegou, Flávio não encaixou bem a mangueira do gás e tivemos medo de morrer. Eu pensava “o que estamos fazendo aqui?”, mas não tinha coragem de verbalizar. Estávamos casados, com medo e precisando aprender a caminhar com nossos próprios pés.
Não foi fácil!
As ligações para casa eram constantes: “como tempero uma carne?”, “como faço um feijão com caldo grossinho, não essa água?”. Até hoje não sei fazer feijão, é tarefa de Flávio!
Foram dias difíceis…
Então, papai foi nos visitar pela primeira vez e levou na mala: feijão verde, carne-de-sol, rapadura, farinha fininha, floco de milho e… a cuscuzeira que ele fazia meu cuscuz fofinho e cheiroso enquanto eu era solteira. Desde pequena via aquela panela de formato engraçado na cozinha e nunca tinha dado valor…
No dia seguinte acordamos com aquele cheirinho inundando nosso apartamento de quarto e sala. Já tive muitas alegrias na vida, graças a Deus, mas esse momento foi tão especial! Pequenas coisas, às vezes, nos marcam mais que grandes gestos.
Foi o calor do cuscuz, seu perfume, sua consistência, o saber que foi feito por papai. Foi o sabor de casa! Nossa casa era realmente um lar, agora eu percebia isso!
A cuscuzeira ficou para a gente. Quase 29 anos de casados e ela trabalha muito ainda. Essa semana ensinei nosso filho mais velho a fazer cuscuz. Semana passada foi a vez do caçula. Preparei o flocão, peguei a cuscuzeira e mostrei a marca que ela tem, do nível de água para fazer o cuscuz. São muitos anos de uso.
Eles não entenderam o valor disso, mas eu sim.
E com os olhos cheios de lágrimas pensei: mais uma geração na família que será alimentada com amor em forma de cuscuz…
Bárbara Seabra – Cirurgiã-dentista, autora de “O diário de uma gordinha” e escritora
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