CRÔNICA POLÍTICA, OU POLICIAL? –
Quem leu o que escrevia no passado, e escrevo hoje, deve ter notado que mudei de foco. E muito. Antes, caía na besteira de comentar assuntos políticos, fossem nacionais ou internacionais. Com ênfase, claro, nas coisas do Brasil. Graças à Deus e ao bom senso, mudei completamente. É que não gosto de assuntos policiais, pois sempre me lembro da última página do antigo “Diário de Natal” que, muitos diziam, se fosse exprimida escorreria sangue. Infelizmente, é o que acontece hoje com as crônicas políticas que, embora saia pouco sangue, sai muito dinheiro roubado. Crônica política e crômica policial se confundem.
Essa a razão principal da mudança. Claro que me preocupe com a política e o rumo que, infelizmente, cada vez nos entristece mais. Para quem sonhou com um país moderno, ágil, atualizado, onde seus filhos tivessem uma vida digna, o que ocorre por aqui é de estarrecer.
Para onde você olha, executivo, legislativo, judiciário (desculpem as minúsculas, não é erro, é de propósito), a assombração está sempre presente e atuante. Raro o dia em que as tevês, os jornais, os comentários dos amigos, não se deparam com o crime organizado. E, diga-se, muito bem organizado. As leis são modificadas ao bel prazer dos congressistas para isentá-los de culpa; o judiciário interpreta a constituição ao seu interesse momentâneo e, no outro dia, dependendo das circunstâncias, mudam essa interpretação; o executivo emite decretos, medidas provisórias, normas e atos que simplesmente traduzem desejos passageiros, sempre beneficiando este ou àquele grupo, que garante mais votos ou paga melhor.
Onde vamos parar? Dizem que a vaca está indo para o brejo. Acho que já está lá há muito tempo. Minha preocupação é como tirá-la de lá. Veem eleições por aí. Numa democracia verdadeira, onde o povo vota conscientemente, é uma forma de mudar tudo que está errado. Mas, infelizmente, os nomes que até agora se apresentaram, e que aparentemente têm alguma possibilidade, não são animadores. E, como já dizia Pelé na sua sabedoria futebolística, os brasileiros não sabem votar. Valida sabedoria, pelo que estamos à ver.
Também parei com comentário sobre a política internacional. E, depois de Trump nos EUA, o Brexit na Inglaterra, que esperar dos eleitores por aqui? A gente pensava que os americanos. Ingleses, europeus em geral, sabiam escolher seus dirigentes. Escolheram vários realmente competentes. Mas, de George Bush para cá, com honrosas e momentâneas exceções, aderiram aos ensinamentos de Pelé.
Hoje, toda vez que estou numa roda e o assunto vai para política, lembro um amigo meu, já falecido, e que simplesmente dizia: não me falem de política deste país; eu aqui sou turista. Embora tenha filhos, netos e bisnetos, que terão de viver aqui, lamento a herança que terão. Embora ainda procure fazer alguma coisa, sinto que o meu tempo está terminando e minha influência se aproxima de zero.
Dalton Mello de Andrade – Escritor, ex-secretário da Educação do RN
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