Adauto José de Carvalho Filho 

Eu não sei se os leitores (ou a maioria) já viveram a experiência de jogar futebol de várzea. É um jogo de futebol que tem algumas características interessantes: não há como se terminar uma partida, demasiadamente disputada ou não, sem lama até os joelhos e sem uma boa briga, sem grandes reflexos, meros buxixos por desentendimentos dentro do campo.

Já faz parte do fato. Jogou, sujou-se, brigou.

O Congresso Nacional, apesar do glamour, demonstra ser de várzea. Qualquer sessão onde se aprecie algo de importância, surgem os sujos de lama até os joelhos e os briguentos. Nos campos de futebol de várzea tudo termina em alegria e sinceras comemorações para vencedores e perdedores.

No Congresso Nacional nunca termina, tudo faz parte de uma enganação infinita, ou é técnica de defesa pessoal de envolvimento ou não no escândalo que está sendo apurado ou dando cobertura a confrades, usando a violência física e verbal e, pior, a violência regimental, qual seja, sutis manobras ou firulas procedimentais com o objetivo de obstruir a sessão, por vezes, a apuração dos fatos.

A verdade não faz parte das regras do jogo. Uma espécie de jogo atípica onde não há times e certames, mas uma completa “suruba” corporativa onde todos são cúmplices ou culpados. Eu sei que a generalização conduz a erros, mas me justifiquem por que tanto esforço, tantos atos nojentos, tantos subterfúgios para se apurar qualquer coisa relacionada a um ou mais congressistas.

Como cidadão, amador em política e experiente em politicagem, só encontro uma justificativa: eu defendo hoje, para ser defendido amanhã.

No lindo e caro cenário do Congresso Nacional não há como se fazer filmes de bandidos e mocinhos, pela completa falta dos últimos, mas passível de filmes tendentes ao gênero de “50 TONS DE CINZA”, onde tudo se passa nos trinques da etiqueta, mas termina em deprimentes cenas de masoquismos e surubas corporativas.

O sucesso é garantido.

A forma testada e repetida há quinhentos anos. Eu suponho que, em breve, devem protagonizar um espetáculo digno de um título mais tradicional- 500 TONS DE CINZA. O cenário foi montado pela Petrobras e o enredo pelo Ministério Público. O que falta, mas já estão ensaiando, são as relações entre os núcleos da história e a coisa está feia, até os produtores foram envolvidos. Os empresários e empreiteiros acostumados apenas com o financiamento das tragédias teatrais brasileiras, foram ungidos ao “cast” de atores canastrões. Não se sabe ainda em que núcleo vão atuar.

O primeiro ensaio feito ontem na sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito foi digno de pena. Os atores, contrariando o texto acordado, partiram para cima do presidente e a encenação virou pastelão e os diálogos brigas de botequim. O Brasil está numa crise institucional tão grande que qualquer parlamentarzinho se acha no direito de trocar o decoro que lhe imposto pelo ridículo de quem não tem a mínima formação para o exercício de um cargo público e sequer o mínimo de educação pessoal e postura profissional.

Com escândalos atrás de escândalos, listas e mais listas eu tento imaginar quem vai sobrar para acusar ou defender

alguém. O enredo dessa nova legislatura se assemelha (com todas as vênias) ao grande Machado de Assis, patrono da Academia Brasileira de Letras, a uma de suas obras- O ALIENISTA, onde um psiquiatra chega em uma cidade e, a cada consulta, internava um cidadão por suposta loucura. Dezenas de internações depois descobriram que louco era o psiquiatra. No nosso conturbado Congresso Nacional, por enquanto, fica difícil saber que são loucos ou psiquiatras. Será que tem alguma doença que acomete o doente à pratica de nebulosas negociatas?

Vamos esperar. A legislatura está no começo e a primeira lista ainda é uma velada ameaça. O surto pode está a caminho, embora acredite apenas no susto. Uma coisa seria certa.

Nenhum parlamentar teria crise de soluço… imaginem lágrimas de arrependimento ou de crocodilos. Bom, o cenário para o jogo de várzea está completo, campo, jogadores titulares e reservas, juízes e lama, muita lama. Quem quer dar o pontapé inicial?

Adauto José de Carvalho Filho – AFRFB, Pedagogo, Contador, Bacharel em Direito, escritor e poeta).

 

Ponto de Vista

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