COITADO DE PAULO GUEDES – Tomislav R. Femenick

COITADO DE PAULO GUEDES –

Uma grande incógnita econômica que se discute hoje é como serão os negócios no Brasil e no mundo, depois da pandemia. Para se ver alguma luz no fim do túnel é necessário recorrer aos saberes econômicos. Então, para entender melhor, vamos simplificar: A economia tem duas linhas de pensamento: a “economia normativa” e a “economia positiva”. Esta última tem por função descrever e explicar os fenômenos econômicos, enquanto a primeira se dedica a prescrever comportamentos para os agentes econômicos.

Esse confronto teórico é raiz de muitas controvérsias. Foi tema das ideias de Michel de Montaigne (1972), Francis Bacon (1973), René Descartes (1977), Adam Smith (1981), Immanuel Kant (1958-?), Karl Marx (1983/4), Engels (1976), Jean-Baptiste Say (1983) etc. Todavia, a abordagem metodológica que melhor apontou a distinção entre ciência positiva (fato) e ciência normativa (julgamento de valor) foi realizada por David Hume (1973, 1983) e George Edward Moore (1974).

O que sempre esteve no cerne foi a importância da “razão crítica” como polo epistemológico. A capacidade crítica da razão como um elemento de comprovação das hipóteses e teorias é, portanto, uma das ferramentas da metodologia da ciência, principalmente pela sua faculdade de criticar a si própria. Destaque-se que, em uma das mais importantes fontes dos estudos sobre a razão, a Crítica da razão pura, a fenomenal obra de Immanuel Kant, é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto da crítica.

Alguns estudos que indicavam essa segmentação começaram a ter maior repercussão no início Século XX, destacando-se entre eles um trabalho de John Neville Keynes (1999), pai do célebre John Maynard Keynes. Sua concepção foi de que a economia positiva enfoca “o que é”, enquanto a economia normativa discute “o que deveria ser”. A justificativa epistemológica para a distinção entre economia positiva e economia normativa permanecia inalterada. Isso porque, enquanto a primeira tem premissas suscetíveis de discussão racional, de avaliação empírica, a outra carece dessa condição por depender de julgamentos de valor que, por sua própria natureza, se alicerçam em escolhas subjetivas.

Entretanto, apareceram estudos que desestruturavam a distinção “economia positiva x economia normativa”. Gunnar Myrdal (em 1932) e Joan Robinson (em 1962) defendiam que, quando as teorias considerassem os juízos de valor, fossem incluídos todos os componentes das hipóteses. Por sua vez, Kenneth Arrow (1951) demonstrou ser impossível desenvolver uma função de bem-estar social, sem envolver, ao mesmo tempo, fatos da realidade e de juízo de valor. Sua dificuldade foi quebrar as amarras de alguns conceitos das ciências sociais, entre os quais o de que as premissas “dos meios racionais” e do “propósito racional” seriam excludentes entre si. Seu pressuposto considerou esses elementos como paralelos, porém apontando na mesma direção, embora que, para isso, tenha-se que fazer uso da “racionalidade da supressão” das arestas consideradas irracionais para a função. Nesse mesmo sentido, porém com abordagens diferentes, caminharam o indiano Amartya Sen (1976), Lawrence Boland (1998) e Stanley Wong (1978).

Na segunda metade do século passado, um dos principais estudiosos sobre a economia positiva e a economia normativa foi Mark Blaug, com o seu livro A Metodologia da Economia (1993). Sua análise é direta: a economia positiva centra sua atuação em trabalhos relacionados a fatos comprovados; enquanto que a economia normativa faz uso de conceitos. Embora constate essas duas correntes de atuação das ciências econômicas, Blaug põe em dúvida que haja ruptura, algum tipo de posicionamento excludente entre elas. Ao contrário; indica que haja uma relação, senão de complementariedade, mas de elementos que se acrescentam.

Aplicada à nossa realidade: Ou o governo federal não sabe nada de economia e o Brasil “que é” ou vive nadando “no que deveria ser”, mas não é. Coitado de Paulo Guedes.

PS – Quer saber mais? Leia meu próximo livro “Economia Avançada”, a ser lançado em breve.

 

 

 

 

 

 

 

Tomislav R. Femenick – Jornalista, historiador e membro do  IHGRN

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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