CHUPANDO MANGA – Flávia Arruda

CHUPANDO MANGA –

A primavera não é somente a estação das flores. É também o tempo de frutas da estação, e aí é onde se encaixa a manga espada. O tipo de manga mais antiga e consumida do Brasil. É uma fruta comprida e de casca esverdeada, e possui uma textura sedosa e macia de sabor, incrivelmente, adocicado. Para o mim, é a mais gostosa dentre todas as espécies de mangas, daí o convite ao prazer de saboreá-la.

Naquele ano, o pé de mangas espadas do quintal de minha sogra estava carregado. Não resisti e me aproximei da árvore. Embaixo de sua copa frondosa, avistei uma bela e apetitosa espécie do fruto, no ponto de ser colhida.

Acho que ela se encontrava ali à minha espera. Foi paixão à primeira vista. Seria ela mesma. Com carinho, estendi os braços na sua direção e a envolvi com as mãos, como numa reverência, para não a machucar. Então a desprendi dos galhos.

Nem lembro se cheguei a lavar a manga, tamanho era o deseja de levá-la à boca e sentir o seu sabor. Sentei no batente da cozinha, de frente para a mangueira, cruzei as pernas, e enfiei o vestido no meio delas tal qual uma moleca traquinas.

Agarrei-me, selvagemente, ao meu fruto predileto, rasgando a casca com os dentes. Senti o sumo escorrer pelos cantos da boca e a maciez de sua polpa descendo até me tocar os seios. Chupei aquela fruta como se fosse a última de minha vida. Senti suas fibras se entranhando por entre os dentes. Estava extasiada pelo prazer que a manga me proporcionava, ao saborear a delícia de seu doce.

Não precisei de muito tempo para devorá-la. Logo, só restou o caroço com aqueles cabelinhos assanhados de tanto serem sugados e arranhados por mim. Olhando para o caroço sem cor ou textura, pensei em como imputar-lhe um pouco de atratividade, pois lhe desejava um final digno. Imaginava dar-lhe uma recompensa pelo prazer que havia me proporcionado.

Optei por transformar os pelos do caroço da manga num penteado ao estilo moicano. Com os lábios amaciei e deixei os pelos eretos, e com os dentes raspei o excesso da penugem, resultando numa aparência assemelhado ao penteado de Neymar Jr. ao aderir à dita moda.

Essa cabeleira estilizada me rendeu muitas recordações. Pensei nas galeras dos bailes funks de minha adolescência; nos punks, cujo movimento contestador com relação à ordem social vigente, tinha como característica cabeleiras eriçadas; e, em como um simples penteado poderia representar a liberdade de expressão de uma sociedade.

Fui um pouco mais além no passado. Passeei pela repressão e pela censura instituída pela ditadura militar, até a consumação da conquista do voto direto. Lembrei do movimento estudantil dos caras pintadas nas ruas protestando, inconformados, com as denúncias de corrupção no governo. Finalmente, alcancei o primeiro impeachment de um presidente no Brasil.

E o caroço, o que tem a ver com isso? Se fosse possível fosse, eu gostaria que aquele caroço também representasse a liberdade de expressão da mulher que, apesar de todos os perrengues da vida, aprendeu a pensar, a sofrer, e a chorar, porém, soube aprender a dar boas gargalhadas, amar, ser livre e chupar a fruta da estação sentada no chão de pernas cruzadas, como uma moleca.

Imaginem o que chupar uma manga pode significar!

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora

 

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