CARTA AO MEU FILHO, APÓS A ELEIÇÃO – Ney Lopes

CARTA AO MEU FILHO, APÓS A ELEIÇÃO –

Caro Ney Júnior,

Você tentou servir a Natal como vereador. Não conseguiu reeleger-se. Deus existe e sabe o que faz. Cultive a humildade cristã. Aprenda com a derrota.

Sei que é um idealista.

Usou o mandato para propor e aprovar 56 leis, todas em vigor, protegendo e servindo à população. Preparou-se para discutir a revisão do Plano Diretor de Natal, que será aprovado em 2021 e tornará Natal mais saudável, ou mais caótica. A

maioria dos seus concorrentes levava na galhofa o seu estilo de fazer política e dizia que serviços prestados não elegem ninguém. Eles realmente tinham razão.

Enfrentou pneumonias e depois Covid. Internou-se duas vezes nas UTIs do São Lucas e Hospital do Coração. Sofreu sequelas, curou-se e prosseguiu na luta. Os adversários maldosos (e até correligionários) espalhavam que não teria condições de saúde para exercer o mandato.

Mesmo assim, você não se intimidou.

O resultado mostrou, que praticamente acabou o voto de opinião, dado em função do trabalho realizado, ou propostas sérias. Com muitos percalços consegui aglutinar no passado esse voto e por isso cheguei seis vezes ao Congresso Nacional.

Gratifica-me ainda hoje encontrar depoimentos de pessoas, dizendo que se formaram graças ao crédito educativo (hoje FIES), que criei como deputado federal, em 1975.

Deixei-lhe a herança política do dever cumprido. Como não amealhei “moedas” foi impossível transferir votos para você. Em nosso relacionamento, eu e a sua mãe mostramos o valor da virtude, que inspira a força moral, indispensável ao sucesso.

Quando se iniciou na política, lembrei-lhe os conselhos do general Robert E. Lee ao seu filho:

“Seja franco; a franqueza é filha da coragem e da honestidade. Diga o que pretende fazer em todas as ocasiões e se certifique de fazer o que é correto. Não permita que eu e sua mãe tenhamos um só fio de cabelo branco por qualquer falha de sua parte no cumprimento do dever”.

A única forma de honrar o voto popular é cultuar esses valores. Sei que você honrou nos seus mandatos. Ensinei-lhe ter fidelidade aos verdadeiros Amigos, que são aqueles das estradas, dos acenos, do anonimato, do reconhecimento pelo trabalho, da admiração gratuita. Alguns até nunca sequer apertaram a sua mão.

Cultue esses, porque a grandeza humana não convive com mágoas, revolta e ingratidões.

Diante da decepção do resultado eleitoral, após tanto esforço que fez para acertar, siga o provérbio chinês: “acenda uma vela, em vez de amaldiçoar a escuridão”. Fora da política, nunca decepcione quem acreditou em você.

Jamais seja ingrato com quem lhe ajudou de boa-fé. A ingratidão é a perversão do caráter.

O meu conselho é que deixe a política. Exerça as profissões que se habilitou: advogado e jornalista. Um dia, se houver reforma eleitoral no país, que garanta pelo menos o candidato avulso, poderá tentar concretizar os seus ideais.

Mas, com os métodos atuais é praticamente impossível você ganhar, seguindo os valores que lhe recomendei. Infelizmente, a realidade eleitoral revela as lágrimas da nossa democracia.

Não se arrependa de ter tentado. Theodore Roosevelt já afirmou:

“É muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfo, mesmo se expondo à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito, que nem gozam muito, nem sofrem muito, porque vivem numa penumbra cinzenta, que não conhece vitória nem derrota”.

A propósito, recordo a visita que fiz, em companhia da sua mãe, ao santuário de Madre Teresa de Calcutá, em Skopje, Macedônia do Norte. Lá estava escrito: “Ontem se foi. O amanhã ainda não chegou. Nós temos apenas hoje. Comecemos”.

Fora da política, formaremos ”mutirão” para “começar” com você: eu, sua mãe, sua avó, sua esposa, sogra, suas irmãs, sobrinhos, tios, primos, cunhados, familiares, amigos sinceros. Agradeça a eficiente e honesta equipe, que lhe assessorou.

Mesmo derrotado, continue amando e querendo bem a Natal, ao RN e ao Brasil. Se de um lado existem as traições e felonias, de outro há a recompensa dos gestos de gratidão e solidariedade.

Repita Vinicius: “a gente não faz amigos, reconhece-os”

Em tempo: Além de todo ocorrido, perdemos o amigo leal Genésio Pitanga, radialista, que se empenhou de corpo e alma na campanha. Morreu de enfarte fulminante. Imensa dor. Que Deus o receba na Eternidade!

 

 

 

Ney Lopes – jornalista, ex-deputado federal, professor de direito constitucional da UFRN e advogado – nl@neylopes.com.br

As opiniões emitidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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