CARNAVAL HÁ CEM ANOS EM NATAL – Gutenberg Costa

CARNAVAL HÁ CEM ANOS EM NATAL –

Como teria sido o carnaval de rua em Natal, no ano de 1919, há exatamente cem anos atrás? Vamos recorrer a pesquisa já publicada, em nosso primeiro volume da história do carnaval natalense – ‘Antigos Carnavais da Cidade do Natal’, editora 8, 2016, págs. (148/151), que nos mostra, segundo jornais da época que este teria ocorrido bem animado na então Rua ‘da Palha’, hoje Vigário Bartolomeu a partir de primeiro de março, um sábado ensolarado.  A referida artéria festiva teria ficada toda ornamenta durante os três dias de momo. O elitizado ‘Natal Clube’, sob a presidência de ‘José Pinto’, realizou seus três bailes carnavalescos já tradicionais.  A comissão de recepção do citado Clube Social, que ficava nas esquinas das ruas, hoje, João Pessoa, com Rio Branco, era composta dos ilustres nomes: Kerginaldo Cavalcanti, Luiz da Câmara Cascudo, Alcides Cicco, Virgílio Trindade, entre outros.

O jornal ‘A República’ do dia 21 de fevereiro, já começa anunciar a venda de lança-perfume para os carnavalescos frequentadores de bailes fechados, tanto no Teatro Carlos Gomes, hoje Alberto Maranhão, como no Natal Clube. As marcas mais conhecidas eram: “Vlan”, “Paris”, “Royal”, “Alice” e “New York”. Estas eram vendidas na loja sortida do comerciante Manoel Machado, no bairro da Ribeira, ( M. Machado e Cia).

Quando entrevistamos a saudosa dona ‘Maria Nazaré Gomes de Souza, popularmente conhecida por dona – ‘Neném’, moradora do bairro das Rocas, (1906- 2001 ) a maior e fiel fonte oral desta pesquisa, principalmente em relação às décadas de  20 e 40, do século XX, esta lucidamente nos informou alguns detalhes do carnaval e até cantou um raro ‘hino’ ou ‘canção de seu Clube preferido: “Hino dos Remadores’ – “Nós somos Remadores / Alegres vamos seguir / Na passagem das moreninhas / Sobre as margens do Potengi…”. Além dos ‘Remadores’, por esta época, existiam entre outras agremiações de rua em Natal, como os ‘Lenhadores’; ‘Varredores’; ‘Zé Pereira’ e ‘Maxixeira’.

E sabe-se que esses referidos ‘Clubes de Manobras’, eram os animados e antigos ‘Cordões carnavalescos’, que saiam durante as manhãs de carnaval em Natal, com influência direta dos velhos ‘Cordões cariocas carnavalescos’. Estes eram compostos só de homens e percorriam as ruas da Cidade Alta e a Cidade Baixa, (Ribeira). Nos referidos Clubes, tinham dois personagens importantes em seus desfiles, que eram o ‘Puxador de Cordão’ e o ‘Baliza’, estes comandavam as manobras e coreografias das. Saíam com vestimentas coloridas, adereços nas mãos, como flores ou cestas, cantando suas próprias canções ao som de batuques ou orquestras. Havia certas rivalidades entre os Clubes de rua em Natal e pelo resto do país, dando margem as autoridades ficarem sempre de olho, em suas passagens pelas ruas. Ainda segundo a opinião da nossa informante (fev, 2003), as ‘lança-perfume’ mais populares desta época, eram as três marcas: “A ‘Flan’ é que era a melhor de todas. A ‘Rigoletto’ fedia a alho e a ‘Rodo’, era muito forte – ardia como diabo nos olhos!”. E estas teriam sido retiradas oficialmente das nossas festas, nos anos sessenta.

Finalizado os festejos momescos do carnaval de 1919, no dia 5 de março, saiu publicado em uma coluna, do Jornal ‘A República’, um resumo deste, onde o então cronista oficialesco, não muito chegado ao carnaval popular de rua, afirma ter sido ‘fraco’, em sua visão. Este só dera ênfase ao baile do seu ‘Natal Clube’, destacando as fantasias mais elegantes femininas daquele ano: “Eutália e Maria das Mercês Madureira”. Ao que tudo parece, o comentarista não teria ido ver de perto os Clubes de manobras, os fantasiados de sujo e populares alegres e brincantes da Rua da Palha e adjacências… Lá verdadeiramente, como diria outro cronista de visão popular e festiva, o carioca João do Rio, (1881/1921), é onde estaria a “alma das ruas”, festivas e rebeldes de momo… E os bailes fechados ao povão, eram coisas só para inglês ver carnaval de luxo e fantasias…

Ps. Lembramos que este ano, o sambista, boêmio e carnavalesco, Antônio Rodrigues Cavalcante, o popular mestre “Melé”, da Escola de Samba, “Malandros do Samba”, do bairro das Rocas, estará completando centenário de nascimento. (09/11/1919- 10/06/1984). Este desde 1980, nos vinha fornecendo informações sobre os antigos carnavais, de seu tempo, em Natal.

 

 

 

Gutenberg CostaEscritor, pesquisador e folclorista

 

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