CAMISAS BUFANTES – Bárbara Seabra

CAMISAS BUFANTES –

A moda vai e vem como as ondas do mar. As calças boca de sino que meu pai usava quando eu nasci voltaram à tona. Na versão feminina, com nome atualizado como calça flare, tenho uma no guarda-roupa. Está guardada desde o início do período de reclusão social, como praticamente todas as minhas calças que não sejam de academia… Bem, não vamos tão longe! Algumas vezes, folheando os álbuns da minha adolescência me pego perguntando-me onde estava meu senso crítico para usar AQUILO. Entre o gel de cabelo com purpurina prateada (New Wave) e as camisas com ombreiras (céus!), existe uma infinidade de coisas estranhas que usei, não nego, mas não posso repetir a dose. Ou posso?

No começo do ano, quando ainda passeávamos livremente sem máscaras e tendo contato físico com os conhecidos, fomos a um restaurante e percebi uma moça sentada duas mesas após a nossa. Ela usava uma camisa  com mangas bufantes transparentes. Muito bufantes. Extremamente bufantes. Neste mesmo dia passei diante de algumas vitrines e as vi,  as mangas, repetidamente, loja após loja. Voltou a moda! Daria certamente para levar documentos dentro de cada uma delas, de tanto espaço que havia! Uma loucura.

Lembrei da saia balonê, dos laços da Viúva Porcino, as calças com as cinturas tão altas que quase substituíam os sutiãs, os relógios de sete pulseiras. Fiquei pensando qual seria a peça que a geração de nossos filhos se arrependerá de ter usado ao olharem as fotos deles daqui a alguns anos.

Mas… Há uma diferença!

Nossas fotos ficavam em álbuns guardados, muitas vezes empoeirados e só abertos raramente, numa reunião familiar ou roda de amigos. Agora… eles… Ah, que engraçado! Uma geração crescendo diante das câmeras dos celulares. Fotos imediatamente expostas nas redes sociais. Imediatamente, não! Passam por alguns filtros, claro. Fotos, selfies, vídeos. Surpreendentemente expostos. Então, lá na frente, eles poderão olhar e pensar: o que passava em minha cabeça ao usar a aba do boné para trás (qual a finalidade do boné, então?) ou as calças tão rasgadas que temos dúvida se são calças ou shorts? Serão estas as coisas de que se arrependerão? Não sei…

É engraçado pensar na diferença entre nossas vergonhas e as deles.  Eu podia rasgar em pedacinhos minhas fotos constrangedoras ou colocá-las dentro do livro de José de Alencar ou Machado de Assis e esquecer que um dia já existiram, enquanto eles… suas imagens já caíram em domínio público através de vários prints ou compartilhamentos…

Saudade das revelações impressas e sua privacidade! Saudade da vergonha meticulosamente reservada para sentir sozinha…

 

Bárbara Seabra – Cirurgiã-dentista e Professora universitária

 

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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