CAIPIRINHA: UM MEDICAMENTO –
Outro dia, rebuscando arquivos integrantes da hemeroteca do IHGAL, lí edições do “Jornal de Alagoas” datadas do período compreendido entre 1918 e 1920, e inteirei-me do grande acontecimento de então, a Gripe Espanhola. Espantei-me com o fato…
Rapidamente, a pandemia conseguiu deixar um rastro de 35 mil mortes no Brasil. Caixões eram empilhados nos cemitérios, por falta de coveiros. Escolas sem aulas, comércio fechado e ruas vazias, muito embora os espaços públicos não hajam sido desocupados, obedecendo orientação das autoridades. A Academia Alagoana de Letras, inaugurada em novembro de 1919, teve seus Estatutos amplamente discutidos, nas dependências do Bar Colombo, localizado no centro de Maceió e ponto de encontro dos intelectuais da terra. A infecção foi generalizada, tendo até o Governador de Alagoas de então, Fernandes Lima, sido contaminado.
Cem anos se passaram, e agora estamos vivendo situação similar. O Covid-19 é considerado o “Jason”, aquele personagem do filme “Sexta Feira”, inimigo praticando um jogo sem regras, fazendo com que a normalidade esteja longe de tornar à normalidade.
Ainda pensando nas páginas dos jornais históricos, não esqueci, suas principais manchetes, enfatizarem serem os alagoanos capazes de saírem fortalecidos do evento crítico, por exercerem a empatia e a solidariedade, respeitando o próximo, a si mesmo, mas acima de tudo, mudando seu comportamento pessoal em virtude das agruras vivenciadas.
Realmente, lições daquela época se tornaram inesquecíveis, principalmente no campo da medicina, porém dois legados se tornaram icônicos. O primeiro é a existência ainda hoje, do Cemitério São José inicialmente chamado Caju, construído no Trapiche da Barra, área então remota da cidade, objetivando enterrar em covas rasas, centenas de maceioenses falecidos vítimas da infecção fatídica, sendo o segundo, uma bebida bem popular, que surgida da ganância dos nossos patrícios, desde então buscando lucros demasiados, inflacionando o preço dos remédios existentes, fazendo fossem valorizados alguns nunca vistos, mas que ganharam atribuições curativas, tais como Água Purgativa Queiroz, Pílulas Sudoríficas de Luiz Carlos, Balas Peitorais e até Sumo de Limão consumido em mistura com porções de álcool. Os três primeiros caíram em desuso pela comprovada ineficiência, enquanto o último, foi aperfeiçoado no Carnaval de 1921, recebendo o incremento de açúcar ou mel, dali surgindo a gostosíssima caipirinha.
No mais, nada prevaleceu. Os cidadãos continuaram egoístas, sempre legislando em causa própria, e até a milenar medicina sofreu tentativas de mácula, quando buscaram politizá-la pelo uso de medicamentos, apesar de os cientistas, queimarem pestanas na busca do antídoto para o Covid-19.
Daqui a cem anos, em 2120, quando uma nova pandemia, que poderá ser chamada de Galacticavírus119, por exemplo, for anunciada, os homens serão mais amáveis e sinceros, tendo a seu dispor, quem sabe, um novo drink, conhecido por “Interesseirinha”, mistura de cloroquina, suco de tamarindo e etanol, com adoçante e gelo a gosto. Sem falar nas musiquinhas cantaroladas no período momesco do ano seguinte.
Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras
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