CAFÉ SERVIDO COM BENÇÃO – ALBERTO ROSTAND LANVERLY

 

CAFÉ SERVIDO COM BENÇÃO –

Em recente viagem a Caicó, ainda era cedo no sertão potiguar. O sol batia de lado na caatinga e pintava tudo de amarelo. Adiante, um letreiro simples: “Restaurante da Dona Lúcia – Café e Cuscuz”. Parei o carro no acostamento, olhei para dentro, não tinha luxo, cadeira de plástico, mesa de fórmica, piso cimentado, forro em pvc.

Empurrei a porta de madeira, o cheiro me pegou primeiro: café passado no pano, forte, misturado com cheiro comida na chapa. “Entra, meu filho. Senta ali na sombra”, disse uma voz de dentro.  Era Dona Lúcia. Cabelo preso, avental florido e um sorriso que já me conhecia, mesmo sendo a primeira vez que eu pisava ali.

A casa estava cheia. Na mesa do canto, três caminhoneiros dividiam um bule e contavam caso de estrada. No meio do salão, um senhor de chapéu de palha comia cuscuz com leite, conversando com o rapaz do balcão como se fossem irmãos de infância. Ninguém tinha pressa. O tempo ali não corria como na cidade. Ele escorria, devagar, junto com o café.

Sentei. Em menos de um minuto a caneca chegou. Branca, de alumínio, fumegando. Junto veio um prato: cuscuz quentinho, manteiga derretendo no meio, um pedaço de queijo de qualho, dois ovos caipira, carne de sol e costela de carneiro. “Quer mais café? Aqui a gente reforça”, disse Dona Lúcia, já se virando pra atender outra mesa.

E foi ali, entre uma garfada e outra, que a sabedoria do povo apareceu sem pedir licença.
O senhor do chapéu falou da roça. Disse que o açude estava baixo de novo, e a previsão não era boa. Fez uma pausa, tomou um gole de café e completou: “Mas Sant’Ana e Nossa Senhora da Guia, iriam providenciar a chuva. E se não chover, a gente dá um jeito.

A cordialidade não era turismo, mas jeito de viver. Era puxar a cadeira e perguntar “já tomou café?”, era dividir o último pedaço de tapioca. Terminei meu desjejum olhando pela janela. A estrada estava quieta, a poeira subia com a passagem de um carro e a caatinga continuava seca. Mas dentro daquele restaurante simples, o mundo parecia inteiro.

Paguei, agradeci e escutei o “volte sempre, viu?” de Dona Lúcia. retornei para o carro com a xícara ainda quente na memória. Entendi ali que felicidade no sertão não depende de chuva. Depende de ter com quem dividir o pão.  E de um café servido com benção de Deus, às 6h da manhã, na beira da estrada.

 

 

 

 

Alberto Rostand Lanverly –  Presidente da Academia Alagoana de Letras

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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