BARBA –

Fiz uma jura de que não escreveria mais nada sério. Ia escrever para me divertir e, se alguém lesse e gostasse, também se divertisse. Mas, hoje quebrei minha promessa e vou tratar de um assunto, no meu entender, seriíssimo. Fazer ou não fazer a barba.

De saída, confesso que tinha preguiça de fazer a barba quando ela começou a surgir, e passava dois, três, dias sem me aproximar de uma gilete. E note-se, meu pai era representante da gilete, e eu deveria dar o bom exemplo. Mas a preguiça era maior. Arranjava mil desculpas, todas amarelas, quando alguém me criticava. Falta de tempo, fazendo a barba todo dia ficava com a pele ferida, incomodava e outras que tais. Nenhuma razoável. Tudo preguiça. Acho que essa coisa de barba foi a pior herança que Deus nos deu. E procedi assim durante bastante tempo.

Papai tinha um grande amigo, compadre, amizade estreita. Funcionário do Banco do Brasil, vivia mudando de pouso e foi morar em Fortaleza. Quando vinha a Natal, ficava hospedado na nossa casa. Ele foi o responsável pela minha mudança de comportamento e passar a fazer a barba todos os dias.

Um dia, na hora do café da manhã, olhou para mim e disse: esqueceu de fazer a barba? Não, eu não faço todo dia, pois a pela fica irritada e incomoda. Se você fizer todo dia, disse, não incomoda, você se acostuma e não fica com essa cara de sujo. Saí da mesa, fui fazer a barba, e nunca mais deixei de fazê-la, pois vi que ele tinha razão.

Quando me aposentei, disse comigo mesmo: vou parar com essa história de fazer a barba todo dia. Mas, o hábito é forte e não consegui. O máximo foi comprar um barbeador elétrico, mas deixa muito a desejar. Nada como uma gilete!

Hoje, quando vejo tanta gente de barba, algumas bem cuidadas e outras horrosas, e somando a isso o que alguns desses barbudos desejam simbolizar, minha ojeriza aos barbudos se completa. Claro, há exceções, mas a grande maioria defende posições políticas que são representadas pela barba. Geralmente, esquerda radical, apaixonados, de diálogo impossível e defendendo posições que me causam enorme desconforto. Mas, há um lado bom. Quando vejo uma figura dessas, mantenho distância, o que talvez não fizesse se o gajo estivesse sem barba. E poderia dar alguns exemplos que comprovam minha tese, mas os leitores facilmente os identificarão.

Uma última, mas importante, observação. Não tenho qualquer preconceito contra os barbudos. Pelo contrário. Tenho vários e excelentes amigos que usam barba. E meus três netos são adeptos.

 

 

 

 

 

 

Dalton Mello de Andrade – Escritor, ex-secretário da Educação do RN, dandrade@dmandrade.com.br

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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