ASTÚCIA CASEIRA – Berilo de Castro

ASTÚCIA CASEIRA

Certo dia, em em uma roda de amigos, tomando um cafezinho bem esperto, surgiu de repente um assunto, de certa forma, curioso e provocador.

O tema chamou logo a atenção de todos os participantes da boa e costumeira resenha: a astúcia caseira, também conhecida na gíria popular como pinto, golpe, desfalque e por aí segue a sinonímia verbal.

De pronto os amigos presentes ficaram bastante  entusiasmados e curiosos com o novo e inabitual assunto e partiram com suas audições aguçadas para saber detalhes sobre  a inusitada operação.

Com tranquilidade de um bom jogador de xadrex,  o resenheiro começou a discorrer com detalhes a inusitada operação “astúcia” caseira: trata-se da fisgada em nossa carteira de cédulas em nossa própria residência; é a confusa e enganadora subtração (inofensiva, às vezes nem tanto), dependendo da mão pesada ou leve da operadora. Trata-se de um hábito costumeiro do nosso cotidiano sem maldade e sem outras maiores intenções.

Todos bem atentos ao tema, quando de repente surge a pergunta de um dos ouvintes: o que realmente desperta a astúcia ou o pinto caseiro? Sem sombra de dúvidas, é a presença da caça (a carteira) bem exposta e bem recheada deixada de bobeira. Quanto mais “inchada”, mais vontade e curiosidade da bendita ser enamorada, bem examinada, palpada e subtraído o seu conteúdo cobiçado: pescar ou caçar, seja uma garoupa (R$ 100,00), seja uma onça pintada (R$ 50,00). Que beleza!

Existe, ainda, continua o relator, aquele momento, o mais esperado, quando a vítima vem de uma esbórnia ou chega mais tarde em casa sem aviso e autorização prévia.

Aproveitando o  momento do repouso sonoro da presa,  a operação é realizada na mais tranquila calma e paciência.                                                              ​​A vítima, no dia seguinte, curtindo ainda a vergonhosa ressaca moral, exalando ainda um bafo de “onça”, ao manusear habitualmente a sua carteira de cédulas, percebe nitidamente a diminuição do seu quantitativo monetário. Mesmo assim, não tem coragem de enfrentar e nem questionar a sua sutil e silenciosa operadora, temendo uma resposta bem objetiva e certeira, que de imediato cale a sua  boca (dele), como: —  você deve ter gastado em sua bebedeira sem fim e desnecessária! Deve ter pagado a conta de algum “papudinho” liso.

Não tem como contestar! É calar, calar e calar.

E assim continua a velha, a mais inocente e amadora astúcia ou golpe caseiro.

E, conclui o narrador apontando para um dos integrantes da resenha: você  já foi vítima? Se não foi, prepare-se!

 

 

 

Berilo de Castro – Médico e Escritor,  berilodecastro@hotmail.com.br

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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