OS DOIS EXTREMOS DA NATUREZA HUMANA – 

JAMES AGGREY, político e educador popular, natural de Gana, pequeno país da África Ocidental, alcançou o apogeu entre 700 e 1200 da nossa era. Gana tinha tanto ouro, que até os cachorros usavam coleiras do precioso metal. No século XVI, Gana foi colonizada pelos portugueses, que começaram a exportar escravos para as Américas, em troca de fumo de terceira categoria.

Em 1895, o pequeno país foi invadido pela Inglaterra. Os ganenses perderam a sua liberdade e tornaram-se escravos. Os ingleses afirmavam que os ganenses eram seres inferiores, incultos e bárbaros.

JAMES AGGREY é o autor do livro “A Águia que não queria voar”. Escreveu essa inteligente história, sobre uma águia que, criada entre galinhas, não queria voar, como um lembrete aos povos africanos, que estavam sob a dominação europeia. Ele queria lhes mostrar que a riqueza de suas culturas e tradições continuava viva, mesmo sob opressão, e que eles possuíam muita grandeza. Queria que se conscientizassem do seu destino de águias e que não fossem submissos como as galinhas.

Em 1925, numa reunião de lideranças populares, na qual se discutiam os caminhos da libertação do domínio colonial inglês, ao ver que líderes importantes apoiavam a causa inglesa, ignoravam toda a história passada, e renunciavam aos sonhos de libertação, JAMES AGGREY ergueu a mão e pediu a palavra. Com a calma própria de um sábio, contou esta história:

“Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia, e colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Alimentava a ave com milho e ração própria para galinhas, embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros. Depois de cinco anos, esse homem recebeu, em sua casa, a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:

– Esse pássaro aí não é galinha. É uma águia.
– De fato- disse o camponês. É águia, mas eu a criei como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
– Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Esse coração a fará um dia voar às alturas.
– Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.

Então, decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e, desafiando-a, disse:

-Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então, abra suas asas e voe!

A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos, e pulou para junto delas. O camponês comentou:

– Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha.
– Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.

No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurrou-lhe:

– Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!
Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou fora para junto delas.

O camponês sorriu e voltou à carga:

– Eu lhe havia dito, ela virou galinha!
– Não – respondeu o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar, ainda, uma última vez. Amanhã a farei voar.

No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:

– Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!

A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.

Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico “kau-kau” das águias e ergueu- se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou…voou… até confundir-se com o azul do firmamento…”

E James Aggrey terminou essa história, conclamando:

 “Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que somos, efetivamente, galinhas. Mas somos águias! Por isso, companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos! Voemos como as águias! Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar!”

Se você se detiver diante de uma galinha e de uma águia, você poderá observar os dois extremos da natureza humana. Há pessoas que nasceram para ser galinhas, pois vivem a olhar para o chão, ciscando migalhas para se alimentar, sem ter sonhos que as façam voar até o infinito. Jamais alcançarão a amplidão do espaço, nem se preocupam em apreciar o céu. O símbolo da galinha é a mesmice, a acomodação, a falta de perspectiva de se alcançar um patamar mais alto na vida.

Por outro lado, a águia é o símbolo da ascensão. É a ave que voa mais alto, com suas asas enormes que lhe dão equilíbrio.

Não foi em vão que Rui Barbosa notabilizou-se com o cognome de “O Águia de Haia”, como Delegado do Brasil na II Conferência da Paz, em Haia (Holanda, 1907), onde defendeu o princípio da igualdade dos Estados. Como a águia é a ave que voa mais alto, a brilhante inteligência de Rui Barbosa se destacou entre os participantes dessa Conferência.

Violante PimentelEscritora

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