ACORDO DE PARIS, UM NOVO OLHAR SOBRE O MUNDO =

Nesta conversa, esquecendo um pouco as impactantes decisões na esfera do combate à corrupção, falo da canetada mais importante do governo de Michel Temer. Quiçá, do século.

No último dia 12 de setembro, num documento oficial público, o presidente em exercício Michel Temer assinou a ratificação do Acordo de Paris, previamente aprovado, no ano passado, por 197 países que participaram da Conferência do Clima de Paris. Talvez nem o próprio presidente tenha plena consciência disso, mas, mais do que assinar um tratado internacional, o que ele fez foi mudar para sempre o rumo da economia brasileira. E para melhor. A partir do mês que vem, passam a valer como lei no patropi todas as provisões do Acordo de Paris.

A principal delas é o objetivo de longo prazo de limitar o aquecimento global a bem menos de 2 graus célsius em relação à era pré-industrial, fazendo esforços para que esse limite seja de 1,5 grau.

As implicações que esses dois números trazem são imensas. Eles significam cidades mais habitáveis, com menos poluição, menos engarrafamentos e menos enchentes ou secas drásticas. Significam uma agropecuária mais eficiente e lucrativa. E significam uma conta de luz mais barata.

É um mundo novo que se abre em possibilidade, mas que precisará ser conquistado com muito trabalho e algumas decisões estratégicas. Só sai do papel se o povo entender e cobrar um ajuste imediato da Política Nacional de Mudanças Climáticas.

A consequência mais imediata da entrada em vigor do Acordo será a obrigação de cumprimento de nossa meta, anunciada há quase um ano, de reduzir em 37% as emissões em 2025 e em 43% em 2030 em relação aos níveis de 2005.

Para isso, o Brasil terá no mínimo de fazer cumprir o Código Florestal para recuperar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas, além de recuperar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas.

Trata-se de um esforço político significativo, já que até agora a resistência dos aliados de Temer no Congresso tem provocado sucessivos adiamentos no “cumpra-se” da Lei Florestal. E o crédito rural, cada ano mais superlativo para atividades que degradam terras, não chega a 2% do total para atividades de baixa emissão de carbono.

As metas colocadas na mesa hoje nos levam a um aquecimento de 2,6 graus a 3,1 graus no fim do século. Cumprir o objetivo do Acordo de Paris implica um esforço de guerra, com o povo empurrando.

Para o Brasil, isso significará antes de tudo zerar todo o desmatamento, legal e ilegal. Não há justificativa econômica ou ética para continuar desmatando.

É preciso também ter coragem de mexer na matriz energética. Nos últimos oito anos, o país dos biocombustíveis fez uma aposta pesada no petróleo. Hoje, mais de 70% dos investimentos em energia no Brasil projetados para a próxima década estão travados em combustíveis fósseis.

Ocorre que o Acordo de Paris decretou o ocaso desses combustíveis, por uma razão aritmética: manter a temperatura global em níveis seguros requer deixar a maior parte do petróleo, do carvão e do gás natural no subsolo. O Brasil não pode e não deve vacilar.

A boa notícia é que nenhum país reúne tantas condições de acelerar a descarbonização quanto o Brasil. Podemos ter a agropecuária mais lucrativa e sustentável do planeta – de fato, e não apenas naquela propaganda que passa antes da novela das 9 – aproveitando o espaço imenso para ganhos de eficiência que existe.

Podemos desenvolver uma economia florestal que gere empregos de qualidade onde o país mais precisa, em seu interior. E temos muita oportunidade de ampliar nossa infraestrutura energética com renováveis – uma amostra disso foi o crescimento da indústria eólica no biênio da pior recessão de nossa história.

O governo Temer e seus sucessores, porém, precisarão trabalhar muito para isso. É preciso incorporar o fator clima a toda a nossa equação de desenvolvimento. É preciso enfrentar os setores mais atrasados da economia e seu lobby no Congresso. E é preciso olhar de verdade para a Ciência e Tecnologia.

No mundo pós-Paris, a única ponte sólida para o futuro é essa: desenvolvimento sustentável, e construção de uma sociedade civil consciente e participante, capaz de controlar o poder público.

Sim, é possível alterar a ordem dos acontecimentos. Para tanto, mais do que querer, teremos que fazer. Temos que ir além do voto e passar a participar – ativa, compromissada e diariamente – das questões de interesse público. A política brasileira só vai mudar com a energia de uma sociedade civil vibrante que não tenha medo de assumir seu destino democrático. É, sem dúvida, um novo olhar sobre o mundo.

Em verdade, a Democracia brasileira, antes de políticos, precisa de bons cidadãos, pois é a força dos homens e mulheres de bem o grande catalisador das transformações práticas que o Brasil tanto precisa.

 

Rinaldo Barros é professorrb@opiniaopolitica.com

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,2010 DÓLAR TURISMO: R$ 5,3950 EURO: R$ 6,2170 LIBRA: R$ 7,1630 PESO…

16 horas ago

‘O Agente Secreto’ é indicado ao César 2026, o ‘Oscar’ francês

O filme “O Agente Secreto” foi indicado ao César 2026 na categoria de Melhor Filme…

16 horas ago

Flamengo acerta a contratação de Lucas Paquetá

Lucas Paquetá é o novo reforço do Flamengo. Após semanas de negociações, o clube carioca chegou…

16 horas ago

Anvisa discute nesta quarta regras para a produção de cannabis no país

A diretoria colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) se reúne nesta quarta-feira (28)…

16 horas ago

Dólar opera abaixo de R$ 5,20, à espera de decisões de juros; Ibovespa sobe aos 184 mil pontos

O dólar opera abaixo dos R$ 5,20 nesta quarta-feira (28). A moeda recua 0,59% perto das 11h, cotado a R$…

16 horas ago

Cliente recebe cervejas de R$ 16 mil após gerente de supermercado alegar ‘erro’ na promoção

O supermercado Atacadão de Boa Vista que havia negado a entrega de 140 caixas de cerveja compradas por R$ 16 mil em…

16 horas ago

This website uses cookies.