EU E OS IMORTAIS –  

Esclareceu-me um imortal de nossa Academia Norte-rio-grandense de Letras, que uma das razões da imortalidade atribuída a membros de academias do tipo, vem do fato de eles, após o falecimento, serem lembrados nos discursos de posse de seus sucessores. Sem desejar consolidar lembranças, feito esse já consumado por mérito próprio dos integrantes da ANL, recordo aqui passagens envolvendo a mim e alguns dos imortais, vivos, pessoas que estimo e considero.

DIÓGENES DA CUNHA LIMA – Durante o Governo Geraldo Melo (1987-1991), eu fui cedido pelo DNER ao DER-RN para atuar como Diretor de Obras e Operações do órgão. Naquela oportunidade, efetuávamos melhoramentos na Via Costeira, em Natal, que recebeu moderna sinalização rodoviária.

Surgiu-me, então, a ideia de criar mensagens de exaltação à cidade, para serem instaladas em pórticos distribuídos ao longo dos 9 km da Costeira. Recorri ao presidente da ANL – na época Diógenes -, que encampou a sugestão. Ele me enviou frases da lavra de alguns acadêmicos, as quais, após difícil seleção, ficaram estampadas em placas na via. A iniciativa causou a melhor das impressões a cidadãos e turistas.

Dias depois, recebi a seguinte correspondência de Diógenes: “A frase que você me fez criar ‘Aqui todo dia é dia de Natal’, foi manchete da Folha de São Paulo em Caderno de Turismo, saiu também publicada em várias revistas e jornais. Aécio Emerenciano pintou uma grande e bela tela sobre o tema. E, agora, o nosso talentosíssimo Moacyr Gomes pretende colocá-la na entrada da cidade. Pense como vai longe uma ideia – Natal, 30/11/1998”. A insensibilidade do serviço público eliminou aquelas citações.

VALÉRIO MESQUITA – Conheci Valério como prefeito de Macaíba, eu trabalhando como engenheiro na representação do DNER, em seu município. Em 2004, fui procurá-lo no Tribunal de Contas do Estado para me prefaciar um livro que, por algum motivo, não o publiquei na época. Naquela oportunidade, ele fez questão de me indicar para o quadro de sócios efetivos do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, por conta de dois livros de memórias históricas que eu escrevera.

Em 2015, ele presidente do IHG/RN, resolveu regularizar a situação de sócios eleitos e não empossados no Instituto. E lá estava eu.  Acordamos por uma posse informal sem a festividade costumeira. No seu gabinete, enquanto me apresentava a membros da diretoria presentes à entrega do diploma, perguntou: “Afinal, Narcelio, quem o indicou para membro do IHG?”. De pronto, respondi: “Foi Vossa Excelência, presidente, 11 anos atrás!” – gargalhada geral.

ARMANDO NEGREIROS – Com esse imortal compartilhei inúmeras e deliciosas passagens. Fizemos amizade quando frequentávamos a Sociedade de Medicina, na Av. Hermes da Fonseca, em priscas eras.

Dono de invejável diversidade cultural embasada numa memória prodigiosa, Armando é conhecido por não perder disputas nas tantas em que se mete. Dizem que na pior das hipóteses, ele empata. Pois bem, foi no salão de jogos da Sociedade de Medicina, num começo de noite de uma sexta-feira, perante uma plateia numerosa de médicos, que ocorreu o nosso embate. E que enfrentamento!

Falávamos sobre vinho, e logo chegamos ao Liebfraumilch. Armando, antecipou-se e deu a sua versão: “Significa leite da mulher amada!”. “Essa não é a tradução correta!” – rebati. “E qual é o significado, sabichão?” – espevitou-se ele. “A tradução é monge de Nossa Senhora” – falei. “Aposto o que você quiser, como não é!” – provocou-me confiante. Aceitei a disputa.

Criou-se um clima de expectativa no ambiente. Fui até minha casa e retornei com o livro, Vinhos, de Sérgio de Paula Santos, onde o autor explica que milch provém do alemão antigo minch, que corresponde à forma moderna mönch, ou monge. Assim, Liebfraumilch quer dizer monge de Nossa Senhora. Ganhei e não fiz questão de receber a aposta, pois me bastou o prazer de abater o mais aguerrido competidor da Sociedade, em seu território.

Dias atrás, ao comentarmos àquele acontecimento jocoso, ele desabafou: “Você não sabe da melhor! Com base na sua informação, eu fiz a mesma aposta com um colega, e ele me apresentou um livro que contestava o seu. Nele, Liebfraumilch significa leite da mulher amada. Portanto, eu perdi a aposta duas vezes”.

Assim é Armando Negreiros, meu dileto amigo.

José Narcelio Marques Sousa é engenheiro civiljnsousa29@gmail.com

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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