VILLA LOBOS E O VIOLÃO –
Muitos afirmam que o instrumento predileto de Villa Lobos foi o violoncelo. Na verdade, um dos seus preferidos. Uma análise mais atenta, sugere que a fonte principal de inspiração que formatou a idéia de equilíbrio em suas composições foi, possivelmente, o violão: a chave que possibilitou soluções melódicas e harmonias inéditas que caracterizam o seu estilo (e linguagem musical) caracteristicamente brasileira.
Talvez esse detalhe não tenha se exteriorizado o bastante devido aos modismos e preconceitos da época . Existem explícitas evidências que suportam esta afirmação . Foi o instrumento de sua intimidade, em casa e em rodas de amigos, apesar de tê-lo renegado em público, segundo Mindinha, sua segunda mulher. Atitude compreensível na medida em que o violão não era considerado um instrumento de salão, de música de verdade, e sim um instrumento vulgar de chorões e seresteiros.
Poder-se-ia afirmar de maneira simplista que ele está presente em muito da sua obra. Não deve ter sido por acaso o primeiro de uma serie de doze choros de câmera ter sido escrito especificamente para o instrumento.
Sobre o “Choros № 1” ele mesmo reconhece a fonte de inspiração ao afirmar que “ o tema principal, as harmonias e modulações , apesar de pura criação, são moldadas em cantores e tocadores populares como Sátiro Bilhar, Ernesto Nazareth e outros”.
O terceiro movimento da “Bachiana № 1” para oito violoncelos, foi construído , novamente , “à maneira de Sátiro Bilhar”. Desconfiam os críticos que ele representava a moldura de um choro em direção a um Bach tupiniquim.
A introdução da “ Bachiana № 5” para soprano e oito cellos “ define claramente o ambiente do ponteio dos violões dos seresteiros” como ele próprio afirmou. A ária dessa mesma Bachiana foi transcrita e reduzida para dois violões por Segóvia e , curioso, percebe-se que a atmosfera do choro – escondida no pizzicato do segundo e quarto violoncelos da partitura original – vem à tona , com o violão-centro exercendo esse papel.
A combinação, no mínimo inusitada, de flauta, oboé, saxofone alto, violão e harpa aparece no seu “ Sexteto Místico” . Diz Eurico França: “ Só a presença do violão contribui para dar cor de brasilidade à partitura que, de resto, tem sentido universalista e que, por sua atmosfera, assume lugar à parte na música de câmera de Villa Lobos”.
A importância do entrelaçamento do compositor com o violão popular é esmiuçada por Turibio Santos que invoca como “testemunhas “ Quincas Laranjeiras, Anacleto, Sátiro Bilhar, Catulo da Paixão Cearense, João Pernambuco, entre outros. O violão – continua Turibio – “ foi o seu arquivo musical. Desnecessários os apontamentos se o instrumento estivesse por perto. Nele se registram as primeiras impressões de Bach … as rodas de choro do Rio, as melodias recolhidas em todo o Brasil ( como “Caicó” , que remete ao nosso folclore musical ) e a literatura clássica do violão.
Surpreendentemente , o compositor escreveu poucas peças específicas para o instrumento. Entretanto, exauriu as suas potencialidades associando lirismo à dificuldade técnica.
Data de 1905, referência sobre sua primeira peça para violão “ Panqueca” que não se sabe se é lenda publicada pois , se havia partitura, ela sumiu. Nunca foi editada. De 1908 é a “ Suite Popular Brasileira”, dedicada a Madeleine Reclus e Maria Teresa Teran, contendo cinco danças “euro-brasileiras”: “ Mazurka-Choro”, “Schottish – Choro”, “Valsa-Choro”, “Gavota-Choro” e “Chorinho”. Doze anos após , compôs o “Choros № 1”.
A continuidade com o instrumento foi totalmente assumida a partir de sua grande amizade com Segóvia, iniciada em Paris em 1924. Desde então, libertou todo o violão que havia ainda nele. Nessa época, em homenagem ao amigo, surgiram os “ Doze estudos para violão”. Prefacia Segóvia: “ Eis aqui doze estudos escritos com amor pelo genial compositor brasileiro Heitor Villa –Lobos. Contém, ao mesmo tempo, fórmulas de surpreendente eficácia para o desenvolvimento de ambas as mãos e belezas musicais desinteressadas, sem fins pedagógicos , valores estéticos permanentes de obras de concerto”.
Nos “ Cinco prelúdios para violão” , alguns com conotações de andamento a sugerir “brasilidades”: a dolência dos seresteiros, no primeiro; a ginga do malandro carioca, no segundo; no quinto, uma gozação bem nossa, em compasso ¾, imitando a cadência usada pelos pés-de-valsa europeus daquele tempo.
O de número três, nem os jazzistas americanos deixaram passar em branco: Roberto Muggiati escreve: “ O baterista Max Roach , no álbum “Speak Brother Speak” ( bastante sugestivo, por sinal !) se apropria do prelúdio № 3 para violão” de Villa –Lobos, reintitulando-o “ A Variation” e improvisando em torno do tema ( com o saxofonista Cliff Jordan e o pianista Mal Waldron ) ao longo de 22 minutos, todo um lado do disco”. Ouvi o vinil: eles não apenas tocam os últimos 14 misteriosos compassos da peça, mas os reproduzem de fato e em espírito , com uma ousadia que espanta.
Com uma orquestração inovadora à época, ao extremo da inclusão na partitura de instrumentos cujo porte sonoro contrastam com o violão, como o trombone, e uma cadência final apoteótica que evoca a sua idéia fixa dos cantadores e seresteiros, surge o “ Concerto para violão e pequena orquestra . Um verdadeiro “tour de force” de complexidade técnica semelhante a outros emblemáticos do repertório específico como o “ O Concerto de Aranjuez” de Joaquim Rodrigo ou o “ Concerto № 1 op.99” de Castelnuovo-Tedesco.
Há algum tempo, ouvi uma versão para dois violões do prelúdio da “Bachiana № 4 “ onde a transcrição de Sérgio e Odair Assad é tão perfeita e amoldada à técnica do instrumento ao ponto de eu ficar imaginando Villa a cometer o esboço da peça , dedilhando-a ao violão, com aquele imenso e fálico charuto entre os dentes.
Filigranas e suposições à parte, esse Deus profano, escreveu o que talvez haja de mais verdadeiro e genuíno na arte sonora brasileira e definitivamente proclamou para o mundo o valor de todas as manifestações da nossa música.
José Delfino – Médico, músico e escritor
As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
Um homem de 39 anos que cumpria pena no sistema penitenciário do Rio Grande do…
A Justiça Eleitoral realiza atendimentos neste feriado do Dia do Trabalhador (1º) e também neste…
Mais tempo com a família, para cumprir as obrigações em casa, passear e até mesmo…
Após 26 anos de negociações, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia entra em…
Um homem de 31 anos, suspeito de participar do roubo de joias avaliadas em cerca de…
Aulas em escolas da rede municipal de Natal foram suspensas nesta quinta-feira (30) por causa…
This website uses cookies.