ARTIGO: Ana Luíza Rabelo Spencer

DESCARTABILIZANDO… – 

Vivemos na era do descartável, do fútil, do substituível. O ferro, o sapato, a máquina de lavar, ou o computador quebrou? Joga fora e compra outro. Às vezes, sai até   mais   barato.   O grande problema   é   que estamos aprendendo   e ensinando essa modalidade de vida às novas gerações, e, como “quem conta um conto aumenta um ponto”, estamos começando a abranger a falta de utilidade para as nossas relações pessoais.

A maioria de nós pode contar nos dedos (os de uma só mão, talvez) os amigos de infância que conservou, os vizinhos da casa antiga, da outra escola ou do trabalho. Somos e tratamos os outros de modo superficial e volátil, nos acostumamos com as reviravoltas da vida, mas não conseguimos manter estabilidade nas relações.

Casou? Enjoou? Separa. E separa logo, para não perder a chance de casar de novo (para separar mais uma vez). O filho deu trabalho? Manda morar com o pai, com os   avós…   Não   importa, a   questão   é   “ver-se   livre   do   problema”.   O   amigo   ficou repetitivo, está passando por um mau momento e não pode conter as lamentações? Desliga o telefone, diz que está ocupado e liga mais tarde e nem ligue…

Aprendemos com a vida que ela age como um bumerangue para nos ensinar e testar se aquela lição foi válida. Aprendemos que receberemos o mesmo tratamento que formos capazes de oferecer. Eletrodomésticos, aparelhos e “coisas” em geral, são, sim, descartáveis, mas   os seres humanos são únicos, perfeitos em suas imperfeições   e capazes   de   atitudes   incríveis, impensáveis.   A   singularidade   humana   nos   faz insubstituíveis, e essa é uma das maiores riquezas que poderemos oferecer.

Tentar de novo, dar outra chance, perdoar, recomeçar, são partes do amor, da lei maior que nos mantém vivos, unidos em sociedade. Aprender com os erros, seus e do próximo, saber “sacudir a poeira” e rir, para a vida e pela vida, nos dá esperança, nos dá a certeza da importância que possuímos e que devemos, por amor próprio, sentimento de moral ou crença, difundir.

Não somos descartáveis, inutilizáveis ou vazios de valor e experiências. Somos um   mundo, e   cada   vida   poderia   dar   um   livro.   Cada   história, cada   episódio   que enfrentamos, nos   ensina   sobre   a   fragilidade   da   vida, a   frugalidade   do   tempo   e    a irrelevância de sentimentos não benéficos.

A ciência já concluiu que cada sentimento inferior, de mágoa, ódio e rancor, pode trazer consigo consequências drásticas à vida de quem os alimenta. A felicidade, a paz interior e a consciência limpa são bálsamos que protegem e curam nosso sistema imunológico, e espalhá-los só potencializa os seus efeitos.

Há muito já nos foi dito que devemos tratar a todos como desejaríamos ser tratados e, seguindo essa máxima, seremos longevos, prósperos e completos.

Ana Luíza Rabelo Spencer, advogada (rabelospencer@ymail.com)

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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