ANTES DE IR –

Iniciando a leitura de ‘La Bodega’, narrativa de Noah Gordon, escritor estadunidense, nascido em Worcester, Massachusetts, mestre em literatura e escrita criativa – presente do mano Louis Josuá -, me deparei lá no capítulo sete, com um diálogo que veio complementar uma inspiração instantânea, que aflorou no meio da tarde, de um dia qualquer, desse outubro de primavera.

Sentado na poltrona que me acolhe para leituras diárias, fui criando “amizade” com o personagem principal, o jovem Josep, que após a morte de seu pai resolve voltar à terra natal, Catalunha, onde toma posse da propriedade paterna, no povoado de Santa Eulália e, ali empreende uma aventura árdua: a elaboração de um bom vinho.  O vinhedo da família produzia apenas uvas para vinagre. Josep põe em prática a experiência e o conhecimento que adquirira nos anos passados na França.

No povoado de Santa Eulália residia o cubano Nivaldo Machado, que havia fugido das plantações de cana-de-açúcar nos idos de 1812 e carregava consigo alguns mistérios arrebanhados na vida, até chegar a Catalunha. Mantinha o respeito dos moradores por saber ler e escrever, constituindo-se um ensinador das letras e emérito conselheiro.

Bem, meu propósito não é contar a maravilhosa narrativa de ‘La Bodega’, mas um dos diálogos entre Josep e Nivaldo, a partir da recordação de Teresa, um amor deixado por Josep quando foi em busca de trabalho na França.

Vamos a esse diálogo:

“Ele sentou-se com Nivaldo naquela tarde, tomando café pensativo.

  • Nossas mulheres não esperaram muito tempo por nós, não é mesmo?
  • E por que deveriam esperar? – indagou Nivaldo, razoável. – Vocês partiram sem avisá-las se voltariam ou não. Nunca mandaram nenhuma notícia para nenhuma delas depois disso, nem mesmo para avisarem se estavam vivos ou mortos. Todos na aldeia passaram a acreditar que haviam saídos daqui para sempre.

Josep sabia que o velho tinha razão.

  • Acho que nenhum de nós poderia enviar nenhum aviso. Eu não podia. Havia… razões.”

Agora é que encaixo minha súbita inspiração vespertina, das primeiras floradas da primavera: o poema ANTES DE IR.

 

Antes de ir, possua-me.

O caminho é longo

A volta é incerta.

 

Possua-me não como eu sendo sua,

Mas como sendo o último sopro de sua vida.

Contarei noites e dias enquanto a saudade permitir…

 

Se no labirinto das trilhas

Aportares ao ponto de partida

Poderá não ser o mesmo você,

E eu, talvez, não serei mais aquela.

 

Mas se assim for,

Meus olhos denunciarão o brilho que alcançou quando me possuiu antes de ir.

 

Voltando ao interessante diálogo:

“O que está feito, está feito – disse Nivaldo. – Há um limite para o tempo em que um homem e uma mulher podem permanecer separados e ainda formarem um casal.”

Bem mais adiante, o autor cita: “Josep pensou a respeito e teve de acenar com a cabeça em concordância.”.

E você caro(a) leitor(a), acenaria também positivamente ou de forma diferente?

 

 

 

Carlos Alberto Josuá Costa – Engenheiro Civil, escritor e Membro da Academia Macaibense de Letras (josuacosta@uol.com.br)

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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