ANÁLISE: O GIRO QUE VIRA JIRAU – Ney Lopes

ANÁLISE: O GIRO QUE VIRA JIRAU –

Adversários tradicionais, o ex-presidente Lula e o ex-governador paulista Geraldo Alckmin dão sinais de “aliança”, com o petista candidato a presidente e o ex-tucano a vice.

No RN, o mesmo fenômeno político se repete, quando se anuncia “acordo” da governadora Fátima Bezerra (PT) com o senador Garibaldi Alves Filho (MDB), ambos historicamente em posições antagônicas.

No caso de Lula e Alckmin sempre foi tenso o relacionamento passado entre os dois.

O ex-governador de São Paulo chegou a associar o PT à facção criminosa PCC.

Por outro lado, o petismo levantou assunto indigesto para os tucanos em 2002, vinculando recursos desviados da empresa pública paulista DERSA ao financiamento das campanhas de José Serra a presidente e Alckmin a governador de SP

O quadro político no RN se prenuncia igualmente complexo.

O desfecho dependerá da conveniência pessoal do ex-presidente Lula, a quem a governadora Fátima Bezerra guarda total lealdade.

A orientação nacional do PT é abrir diálogo com todos, mas já surgem reações internas no bloco governista estadual.

Quanto a chapa Lula vs Alckmin, a primeira pesquisa de avaliação colheu 48% de rejeição popular.

Certamente, esse índice aumentou, após o ex-governador demonstrar preocupação com o anuncio de Lula, de que revogará, se eleito, a reforma trabalhista, aprovada em 2017, a qual Alckmin defendeu.

Incontinenti, a presidente do PT não deixou por menos e retrucou: “já temos o caminho, que será a revogação”.

Sempre imprevisíveis, as alianças têm sido práticas usadas pelas lideranças na velha e nova república.

Algumas deram certos, outras errado.

No RN recorde-se uma das mais antigas, no ano de 1955, no famoso “acordão”, sugerido pelo então vice-presidente da República, João Café Filho, que juntou no mesmo palanque, pessedistas, udenistas e pessepistas, elegendo Dinarte Mariz, governador; Georgino Avelino, senador e os suplentes cafeístas, Reginaldo Fernandes e Sérgio Marinho.

O adversário de Dinarte foi o deputado udenista, Jocelyn Villar, que aderira ao PSD de Theodorico Bezerra, o PR dos Rosados e o PTB de João Francisco da Motta e do seu filho, então deputado estadual, Clovis Motta.

Exemplo fracassado de aliança no plano nacional, ocorreu entre Getúlio Vargas e o secretário-geral do Partido Comunista do Brasil, Luís Carlos Prestes.

Ambos dividiram o palanque em eleição no estado de SP, apoiando o candidato Carlos Cirilo Júnior, que competia contra Novelli Júnior, genro do presidente Eurico Dutra.

O acordo causou estranheza, pelo fato de que, na ditadura de Vargas, Prestes tinha sido preso por nove anos e sua esposa, Olga Benário, entregue grávida à Alemanha nazista.

A aliança deu errado.

Os eleitores não assimilaram e elegeram Novelli Júnior.

Para a eleição de 2022 estão na vitrine as possíveis alianças de Lula e Alckmin; Fátima e Garibaldi.

Pelo andar da carruagem, a previsão é que o ex-governador de SP tente fazer um giro, mas faz um jirau.

O deputado federal Rui Falcão, ex-presidente do PT e um dos articuladores das campanhas de Lula, afirmou que o ex-tucano representa uma contradição a tudo o que o partido fez e quer fazer.

Foi mais adiante: “Lula não precisa de uma muleta eleitoral”.

Até Dilma já preveniu Lula, ao dizer-lhe: “O Geraldo Alckmin será o seu Michel Temer. Quando você mais precisar, ele ficará à disposição da oposição para tomar seu lugar”.

Por outro lado, a indagação é se o acordo de Garibaldi com Fátima corre o mesmo risco.

A deputada federal Natália Bonavides (PT) é firmemente contra.

O vice governador Antenor Roberto não escondeu palavras, ao declarar na 98 FM, que “não seria uma aliança eleitoral acertada”.

Ele prosseguiu, lembrando que o PT terá de explicar porque estará aliado ao MDB, se em 2018 levantou o discurso de “combate às oligarquias”, representadas por figuras como o ex-governador Garibaldi Alves, que comanda o partido no Estado.

“As oligarquias por muito tempo governaram o RN e foram as responsáveis por fazer o Estado chegar às condições em que chegou” – concluiu.

Na verdade, com aliados deste tipo, nem Alckmin, nem Garibaldi precisam temer adversários políticos.

 

 

 

 

 

Ney Lopes – Jornalista, advogado, ex-deputado federal, professor de Direito Constitucional UFRN

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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