AMAR É LEI DE DEUS –

Amar é um verbo intransitivo, descobriu Mário de Andrade. O exercício da ação se basta, não precisa de qualquer complemento.

São inumeráveis as manifestações do amor e inexata toda definição. Existe o amor no parentesco (de mãe, filial, fraternal), amor físico, desejo – paixão – sexual (Eros) e amor espiritual (Ágape), amor à vida, amor pela natureza, amor próprio, amor a Deus. Há ainda amores proibidos ou consentidos e aplaudidos, amores da solidariedade ou da glória.

Enquanto o amor erótico é contingente, limitado, que pode ser multidirecionado, o ágape é incondicional, único, ilimitado como o amor materno.

O amor à vida transcende o impulso de sobrevivência, é holístico, universal. Integra-se a ele o tipo de amor à natureza. Tem razão Simone de Beauvoir: “nenhuma tristeza resiste à beleza do mundo”. Pensando bem, a natureza é a grande indutora do amor. Amar é estar próximo da felicidade.

Tudo na natureza ordena que se ame. Pena que há pessoas surdas à sua voz. Aristóteles já sabia disso: “A natureza não faz nada em vão”.

Os amantes tentam sempre transformar dois seres em um. Amor não é fantasia, mas o amante é criador de fantasias amáveis, imprescindíveis à sua condição. Shakespeare, conhecedor da alma humana, pontifica: “Enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia”.

Um dos melhores conceitos existentes sobre o amor é de São Paulo. A epístola aos Coríntios, ensina que o amor é maior do que as virtudes da fé e da esperança. Em verdade, amor é a excelência dos sentimentos humanos.

Mesmo depois da terra ser transformada em aldeia global, os homens sentem-se solitários. O amor, aparentemente ideal e inatingível, realiza-se e consegue ser um eficaz antídoto contra a solidão. Amor é substantivo abstrato, primitivo de amorzinho, amorzão, amoroso. É o que todos nós devemos ter de concreto, sentimento suave e refinado.

A metáfora inicial do soneto de Luís de Camões (1524 – 1580) é sugestiva: “Amor é um fogo que arde sem se ver / É ferida que dói e não se sente / É um contentamento descontente / É dor que desatina sem doer”.

Amai-vos uns aos outros é o preceito, já recomendava o perfeito mandamento, como a si mesmo. Amar é dar à vida a perfeição de poema.

 

Diógenes da Cunha Lima – Advogado, Poeta e Presidente da Academia de Letras do RN

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