ALMA, FLORES E MORANGO –

Perder é uma palavra que não encerra seu sentido máximo. Quando significa ausência, ela espalha doses de saudades. Na busca de respostas, muitas perguntas ficam circulando nas artérias, que nos conduzem pela incerteza do instante posterior.

Fico a pensar na expectativa angustiante do impacto que se aproxima, cujo arregalar dos olhos se fecha ao sentir a fuga da alma.

Restam as flores, em cujas pétalas se registram os momentos constituídos de felicidades, de sofreres, de vitórias, de desprendimento, de luzes, lágrimas, sorrisos e sabores – o preferido, morango.

Não qualquer morango, mas aquele “paterno”, guardado carinhosamente para um momento simples, costumeiro: “Aqui está o seu morango!”.

As mãos que o recebe, o sorriso de satisfação, a mordida suculenta que exala gratidão, já não existem.

O morango continuou guardado – Lucilene Clementino, não viu, nem comeu o fruto “cultivado” afetuosamente.

Ela partiu… Trinta e cinco anos se foram.

O que fazer?!

Pedir a Deus que acolha seu espírito, de filha, de esposa, de mãe, de amiga. Amiga de muitos. Entre eles, Elan Miranda, que acompanhou seus passos profissionais e que num momento de conforto, sugeriu que o morango fosse plantado no quintal, como um gesto de amor à vida.

O solo de Itaporanga/PB se enriqueceria pelo plantio daquele morango, cheio de saudades carregada no peito de seu pai, Joaquim.

E nos retalhos de uma história, Elan, num momento de emoção, escreveu:

MEU MORANGO MAIS LINDO

 

“Certo dia plantei sementes

No pingo do meio dia

Lá no fundo do roçado

Sob o sol do meu sertão.

 

Eram sementes de morango

Que diziam não brotarem

Porque fruta de terra fria

No sertão não nasceria.

 

Deitei as sementes no chão

Unhas e dedos cheios de terra

Dali nasceu um lindo pé

Na terra seca do meu sertão.

 

Outros pés cresceram no chão

Tudo é possível pra quem cuida

Com paciência e fé no coração

Até morango deu no meu sertão.

 

Foi uma vontade infinda

Deixar aquela fruta mais linda

Para dar a minha filha

Que eu aguardava chegar.

 

Esse era o dia… Ela chegou!

Mas não irradiava alegria

Vida que partia e a terra voltaria

Como semente que plantei um dia.

 

Aquele morango mais lindo

Implantarei no solo outra vez

E no carinho deste cultivo

Um novo broto provindo.

 

Amor eterno no coração

Como filha em gratidão

O meu morango mais lindo

Rainha do meu sertão.”

Seu Joaquim (pai de Lucilene), comovido, resolveu repartir o morango e dar para cada filha de Lucilene, suas netas órfãs.

Um adeus… Um tributo a Lucilene.

 

Carlos Alberto Josuá Costa – Engenheiro Civil e Membro da Academia Macaibense de Letras (josuacosta@uol.com.br)

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

Concurso Unificado do RN: Governo publica edital com 175 vagas para Ceasa, Detran e Ipern

O Governo do Rio Grande do Norte publicou nesta terça-feira (17), no Diário Oficial do…

22 horas ago

Caso Marielle: ex-delegado Rivaldo Barbosa deixa prisão no RN para ser transferido para o RJ

O ex-delegado Rivaldo Barbosa, condenado a 18 anos de prisão por envolvimento no caso Marielle…

22 horas ago

COTAÇÕES DO DIA

  DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,2690 DÓLAR TURISMO: R$ 5,4710 EURO: R$ 6,0480 LIBRA: R$ 6,9920…

2 dias ago

Eduardo Bolsonaro é citado pela PF e tem 15 dias para se defender de processo por abandono de cargo

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) foi formalmente citado nesta segunda-feira (16) no processo administrativo aberto pela Polícia…

2 dias ago

Terceira semana de guerra: Irã exibe capacidade de sobrevivência enquanto Trump emite sinais confusos

Na terceira semana de guerra, o Irã exibe claros sinais de sua capacidade de sobrevivência aos ataques…

2 dias ago

Governo libera crédito emergencial para atingidos pelas chuvas

O Conselho Monetário Nacional (CMN) publicou na edição desta segunda-feira (16) do Diário Oficial da União resolução que prevê crédito emergencial a pessoas…

2 dias ago

This website uses cookies.