ALGO SOBRE OS CHATOS –

Sem dúvida, uma das características mais desagradáveis em um humano é ser chato, negatividade que não é suficientemente definida em dicionários. Existe, simplesmente. E por isso mesmo as ferramentas sensoriais são as mais úteis para detectá-lo e, obviamente, para dele guardar distância. Mas isso não significa que não se possa teorizar sobre esse desdouro da humanidade.

Guilherme de Figueiredo, no clima de uma derrota para vaga na Academia Brasileira de Letras, produziu o seu excelente “Tratado Geral dos Chatos”, isso lá pelos idos de 1962. Ocupa-se de temas como “Da relatividade do chato”, “Dos indícios”, “Do emprego da classificação geral” e até sobre um tal “chato benigno”, uma raridade!

Já no século presente, vem Jaguar discorrer, no seu livro “Confesso que bebi”, sobre os chatos bebuns. Com maestria, ensina como esquivar-se de uma dessas pestes ou da maioria delas, mercê da sua experiência, tanto em copo como em conviver com pessoas insuportáveis.

Da minha parte, digo que sou bastante indulgente para com a raça que ultrapassa os limites do álcool (ainda que baixos) e rouba o sossego dos seus interlocutores. Talvez por precaução, visando receber semelhante tratamento quando de algum escorrego etílico. Afinal, franciscanamente, é tolerando que se é tolerado, mesmo bêbado.

O que eu tenho mesmo dificuldade de aturar é um chato acadêmico. Aquele que escolhe um livro para si e quer obrigar outra pessoa a também ler, discutir e, pasmem, gostar! Põe-se como um Zé das Regras, não aceitando facilmente posições antagônicas e detestando críticas aos seus eleitos. Estilo, só se for o dele. Se amar a poesia, desata vitríolo em quem preferir a crônica. Lendo romances, escanteia os que optam por biografias.

Quando adiciona à literatura um verniz ideológico, é pior! Perde o restinho de senso e é capaz das investidas mais reprováveis, como barrar-lhe a saída de uma livraria até que você escute uma declamação, onde versos são despejados com perdigotos. Ou – suma sacanagem – encontra você acomodado em um avião e pede para trocar o lugar com o seu vizinho de cadeira, apenas pelo prazer de emparedá-lo com uma resenha insossa do seu novo clássico de sovaco.

Por fim, para chato só há um remédio: correr dele. Não faça cerimônias. Fuja mesmo!

IVAN LIRA DE CARVALHO – Juiz Federal e Professor

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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