AJUSTANDO OS PONTEIROS –
Estava eu, como de costume, a pensar junto com os meus botões. Pensamentos soltos, fertilizados pelo besteirol do cotidiano. Situações corriqueiras que, de tão bobas, passam despercebidas pela maioria das pessoas.
Não para mim, que prefiro comerciais a novelas; o baterista da banda ao vocalista; o feio, de beleza escondida, a embalagens chamativas. Gosto mesmo das entrelinhas, do que está por trás do subentendido. Daquilo que, por vezes, deseja manter-se escondido.
Num diálogo para lá de informal, entre amigos, tudo parecia ir muito bem. A conversa corria solta, agradável e com muita fluidez. O ritmo estava gostoso e envolvente, até que uma palavra pronunciada mudou todo o rumo da história.
A palavra cabia no contexto da conversa, mas remetia a outras questões polêmicas. Nesse instante, deu-se um estalo na percepção, absorvendo-me para o mundo das indagações e compreensões.
Aquele mundo que nos faz refletir e construir valores pautados nas nossas crenças e vivências. Aquele lugar que regurgitamos, processamos e internalizamos conceitos, dando-nos, por consequência, a base de quem somos, como somos e para que somos.
A palavra geradora de todo esse questionamento: posse. Na verdade, ela foi inventada para ser a ponte, a motivação para outra discussão. O termo posse gerou (in)voluntariamente uma arenga grande, pelo menos de minha parte, levando-se em conta o seu significado: brigar, provocar, discutir, divergir…
No caso em questão, a arenga foi, a meu ver, um subterfúgio, a forma de desvencilhar o assunto do foco principal: a verdade do sentir-se desfocado pelo possuir. É de bom grado deixar claro que foi o outro que começou a arengar comigo, para não dar margem a interpretações contrárias ao ocorrido. Afinal estou sendo fiel aos fatos – por minha ótica.
Toda essa arenga só serviu para jogar um balde de água fria nos sentimentos de quem, por impulso, insistiu em se revelar.
Mostrar-se, esse foi o verdadeiro motivo de toda essa arenga. Mas, de arenga em arenga, vão dando-se os ajustes necessários aos ponteiros do pensar.
Flávia Arruda – Pedagoga e escritora
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