AH, ESSA MADRUGADA… – Flávia Arruda

AH, ESSA MADRUGADA… –

Ela tem me tirado o sono, ou melhor, ela é a própria ausência de sono. Está sempre confundindo minhas ideias, misturando impressões, atiçando os meus anseios e, numa mística mania de não se definir, faz-me perambular entre lembranças e vontades – do que pude sentir e do que apenas ficou no campo da imaginação, nos passados não vividos, nas memórias criativas movidas pela vontade da concretude, trazendo saudades do que ainda não se tornou real e nunca venha a ser (provavelmente).

Perco-me na imensidão da madrugada, na pretidão da noite, em seus espaços vazios, enfastiado de pensamentos abstratos. Perco-me divagando nos céus de nuvens sem estrelas, nas constelações invisíveis do ser, nos platonismos irreais, nos desafetos, nas intrigas, nos desencontros. Os pensamentos se extraviam, embriagados de incoerência literária, absortos pelo lume das estrelas, na pura peleja de tentar me guiar.

Nos contornos das linhas dos pensamentos soltos e desconexos, vou me arriscando, um pouco aqui, um escasso acolá, observando as regras e os espaços, numa fração desnuda do desconhecido, em busca de decifrar os enigmas dos silêncios que a madrugada estampa em seu manto negro. Imagino que daqui a algum tempo, quando tivermos vivido, ou não, aquilo que nos pareceu certo, olharemos para trás e veremos que algumas coisas poderiam ter sido diferentes.

Sinto o frio percorrer a espinha, o meu medo do escuro me causa pânico. No entanto, o medo dá lugar aos pensamentos alheios à minha vontade, que teimam em se propagar numa carreira contínua e intensa, provocando ventanias de ideias, “furacanteando” todas as razões e lógicas da sensatez. Ainda tenho dificuldade em deixar passar, deixar se ir antes de regurgitar.

Com o peso de algumas escolhas e decisões, esqueço-me da escuridão e do medo da madrugada de tal forma que busco o futuro por entre nuvens e estrelas, saltando a lua, desejando antecipar tais reações, com a angústia do que será o certo ou o errado, o que me leva a suposição de que bem melhor que diminuir seria somar, multiplicar… Eu sei, nem sempre é possível somar e/ou multiplicar.

Na maioria das decisões é preciso perder para ganhar… ou seria deixar de ganhar para não perder? O frio volta a percorrer a espinha quando penso nos resultados de tais escolhas, penso: melhor seria nunca deixar lacunas abertas e possíveis cicatrizes. Tenho algumas resistências com o “agora é tarde demais, não tem volta”, principalmente por ter características bem peculiares , pois, gosto de pensar nas possibilidades, nos encontros e reencontros, nas soluções, na reciclagem.

Para finalizar – aliás, gosto mais do termo: deixar em aberto -, com todo esse alvoroço que as madrugadas me trazem, quero dizer que não gosto de pontos finais, prefiro as reticências… e daí se não consigo diminuir, se prefiro somar, se gosto mesmo é de multiplicar escolhas e oportunidades… e daí se sou notívaga.

 

 

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora do livro As esquinas da minha existência, flaviarruda71@gmail.com

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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