José Narcelio Marques Sousa

Agosto findou. Viva Setembro! Tomou forma e cresceu no sentimento popular uma aura negativa de maus presságios atribuídos ao oitavo mês do ano, que evoluiu ao ponto de chamarem Agosto de “o mês do desgosto”. Mais uma das crendices populares.

Agosto, do latim augustus, assim foi denominado em honra do imperador romano César Augusto, substituto do mês Sextil, o sexto do calendário de Rômulo antecessor do calendário gregoriano. Não vou mentir. A verdade é que eu estava torcendo para “o mês do desgosto” passar depressa, a fim de me livrar de alguma sorrateira eventualidade desagradável que porventura escapulisse à procura de dono, e terminasse escolhendo a mim como hospedeiro.

Por curiosidade invadi a Cabine Histórica da internet, para pesquisar o porquê do estigma ao mês de Agosto. Notadamente o dia 24 que guarda, para nós brasileiros, a lembrança do suicídio de Getúlio Vargas.

Então constatei no ano 79 ocorrência de erupção no monte Vesúvio que cobriu de cinzas a cidade de Pompéia, soterrando mais de 2.000 pessoas. O saque a Roma pelo rei visigodo, Alarico I, em 410. Na Franca, em 1572, aconteceu o massacre a protestantes deflagrado pela realeza francesa no episódio que ficou conhecido como “a noite de São Bartolomeu”. Em 1943, na Segunda Guerra Mundial, a aviação aliada destruiu 80% da cidade de Frankfurt. E, em 2004, um avião Tupolev russo explodiu matando 46 passageiros vitimados por atentado terrorista. Tudo isso no dia 24 do mês de Agosto.

A ojeriza para com o mês de Agosto pode ser atribuída a desastres que marcaram a existência de personalidades da política brasileira. Além do suicídio de Getúlio em 1954, houve a renúncia de Jânio Quadros à Presidência da República no dia 24 de Agosto de 1961. Em outro Agosto, 23, de 1976, morreu o presidente Juscelino Kubitschek num acidente de carro, no quilômetro 165 da Via Dutra. Em 2005, num 13 de Agosto, morreria Miguel Arraes, governador de Pernambuco por três mandatos. E, nove anos depois, num outro dia 13, em Agosto de 2014, perderia a vida num acidente aéreo Eduardo Campos, neto de Arraes.

Entretanto, nada poderia ser mais marcante no imaginário da humanidade, do que as duas bombas lançadas sobre o Japão pelos Estados Unidos, que aceleraram o término do segundo maior conflito mundial. A primeira delas, uma bomba atômica de urânio, chamada Little Boy, exterminou mais de 100 mil pessoas em Hiroshima. A segunda, uma bomba nuclear de plutônio denominada Fat Man, abateu mais de 60 mil japoneses em Nagasaki.

Jamais em tempo algum a nação japonesa esquecerá a destruição que “garotinho” e “homem gordo” causaram ao país, justamente nos dias 6 e 9 de Agosto de 1945, respectivamente, em Hiroshima e Nagasaki.

Todas essas desgraças ocorridas no mês de Agosto poderiam ter acontecido em quaisquer dos demais meses do ano. Acontece de o imaginário popular, com base em meras coincidências, valorizar fatos avulsos e sem ligação alguma como sendo presságios ou estigmas.

Agora, cá entre nós, eu não gosto de brincar com a sorte, e costumo repetir o ditado espanhol “yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay…” (eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem…).

 José Narcelio Marques Sousa  – Escritor e engenheiro civil – jnsousa29@gmail.com

Ponto de Vista

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