A VIDA EM TEMPEROS – Tatyanny Souza do Nascimento

A VIDA EM TEMPEROS –

 

O que é que tem?
Tem água-de-cheiro, canela, alfazema, alecrim, hortelã no seu jeito de olhar.
O que é que tem?
Pimenta-de-cheiro, tem folha de louro, dendê e gengibre no seu balançar.
Margarida, erva-doce, alfavaca, roseira, salsão, açucena, seu corpo emana sabor e aroma pro meu desejar.
Óleo-de-amêndoa, arnica, amoreira, açafrão, malagueta.
perfumes, temperos, sabores de feira pro meu paladar.
E eu me levo no seu olhar, tateio o sentido dessa dor
e ouço ancestrais tambores, que anunciam os sentidos do amor.

Sentidos (Temperos) – Rogério MidleJ, Cantor e Compositor Brasileiro

 Em Sentidos (Temperos), Rogério Midlej deixa que os sabores se tornem linguagem, que os aromas virem pele e que cada tempero seja um gesto de amor. Canela, hortelã, dendê — tudo é corpo, tudo é instante, tudo é memória que se dissolve no ar como perfume guardado em lembrança. A vida, assim como a canção, se revela no detalhe: não no excesso, mas no modo como cada especiaria encontra sua medida no outro.

É essa alquimia que nos ensina: o viver pede equilíbrio, o sentir pede entrega, o amor pede risco. A música tempera o silêncio com desejo, e o cotidiano, às vezes insosso, torna-se banquete. E então nos perguntamos: quantos sabores cabem em nós, sem que percamos o paladar da própria vida?

A cozinha, às vezes, é um ensaio da vida. Quando abri o pote de chimichurri, pensei que estava diante do mesmo sabor de sempre, um velho conhecido que me acompanhava em tantas refeições. Mas, sem perceber, havia misturado a porção nova — ardida de pimenta — com a antiga, suave e acolhedora. E o que eu esperava ser um leve realce, transformou-se em fogo quase insuportável no paladar.

Foi nesse instante que compreendi: a vida é feita dessas pequenas distrações. Um toque que julgamos discreto, uma escolha quase sem importância, e de repente o prato da existência ganha intensidade além do esperado. Nem sempre é o que desejamos; muitas vezes é o que precisamos aprender a suportar.

Os temperos não são apenas especiarias: são metáforas de nós mesmos. O sal da rotina, a doçura dos afetos, a acidez dos imprevistos, a ardência das paixões. Em excesso, qualquer um deles pode tornar o viver indigesto; em harmonia, revelam o segredo da boa mesa da existência.

Não se trata de e    liminar a pimenta da vida — ela desperta sentidos, faz lembrar que estamos vivos. Mas é preciso saber dosar, acolher, equilibrar. Erramos, provamos, queimamos a língua… e seguimos tentando. Afinal, é no exercício diário de temperar que a vida encontra sabor.

E você, tem percebido o quanto de pimenta tem deixado escorregar no prato dos seus dias?

 

Tatyanny Souza do Nascimento –Psicanalista e escritora

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,1710 DÓLAR TURISMO: R$ 5,3680 EURO: R$ 5,9750 LIBRA: R$ 6,9280 PESO…

7 horas ago

Inmet renova alerta de acumulado de chuvas para Natal e mais 68 cidades do RN

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) renovou o alerta de perigo potencial para acumulado de chuvas que afeta Natal e outras…

7 horas ago

Missa de um ano de falecimento de Maria de Lourdes Alves Dias de Souza

    Nós que fazemos o Blog Ponto de Vista prestamos nossos sentimentos a família…

8 horas ago

PONTO DE VISTA ESPORTE – Leila de Melo

1- O que parecia ser mais um GP de Mônaco com pouca movimentação, neste domingo,…

8 horas ago

Irmã Diva Freire completa 100 anos

A tia do nosso editor Nelson Freire completou no último sábado (06) 100 anos de…

8 horas ago

Imposto do pecado: bebidas alcoólicas, refrigerantes e cigarros; governo diz que tributação começa em 2027 para reduzir consumo

Aprovado no âmbito da reforma tributária sobre o consumo, o imposto seletivo, conhecido como imposto…

8 horas ago

This website uses cookies.