A MÚSICA PREFERIDA – Alberto da Hora

A MÚSICA PREFERIDA – 

Há algum tempo, fui visitado por um amigo e compadre (sou padrinho de um filho seu) que, em um dia de sábado, irrompeu na minha casa e, com uma conhecida sem-cerimônia, depositou na mesa da cozinha dois enormes frangos assados e a inseparável farofa, depois de desmembrá-los de uma graxosa e suculenta sobrecoxa. Ato contínuo, mastigando a carne, dirigiu-se à sala onde eu fui interrompido, enquanto ouvia em LP um trecho da ópera La Fida Ninfa, de Vivaldi.

A presença, mesmo inesperada, daquele respeitado e prestativo compadre seria normalmente agradável, não fosse o grosseiro depósito dos dois frangos na mesa e os modos como criticou a minha audição da música. Foi direto na vitrola, retirou o disco e repreendeu-me, com bem humorado estardalhaço, que aquilo era música para enterro ou dia de finados, e que eu deveria ouvir outra coisa, talvez um “forrozinho”, que é bom para curtir e dançar.

Já me deparei com atitudes idênticas, que nos revelam como se manifestam algumas preferências musicais. Acho que depende, principalmente, da formação cultural, um pouco da educação formal ou dos meios pelos quais tomamos conhecimento das diversas formas de arte. Apoiado, principalmente, pela influência materna, consegui ter acesso e aprender a reverenciar os variados gêneros da música popular. Em criança, com meu pai, acompanhando a apresentação de um grupo regional composto de violão, bandolim, clarinete e percussão, fui seduzido pelo som do qual, até hoje, sou admirador. Ainda muito jovem, ao conhecer a pequena discoteca do Sindicato dos Ferroviários, entrei em contato mais direto com algumas peças eruditas, e na Rádio Cabugi, através de um amigo discotecário, aprendi a respeitar e gostar das óperas que ele ouvia e nos recomendava. Com meu irmão mais velho, violonista autodidata, experimentamos cantar e nos divertir com as canções mais tradicionais de Natal e do Brasil, e com atrevidas incursões pela música jovem dos anos 1960, integrando um pretensioso quarteto, que incluía outro irmão e um primo. Parte desse grupo ingressou em uma nascente onda – ou tendência musical – e também formou e desfrutou de algum brilho com a sua roda-de-samba.

Já escrevi que a “democratização” da arte, mesmo não sendo crime nem pecado, permitiu o surgimento e a proliferação de peças consideradas, a meu juízo, de extremo mau-gosto e incapazes de competir em excelência e qualidade sonora com tantas obras produzidas e criadas ao longo dos séculos, desde quando foram inseridas no cabedal de todas as artes. Entretanto, por respeito ao gosto alheio e por defender a liberdade de expressão em qualquer âmbito, tenho dificuldade em reprovar e me recusar a ouvir ou divulgar a música que considero de má origem ou de má qualidade.

As preferências musicais são livres e temos que defender o direito de serem exercidas por todos. De minha parte, tomo a liberdade de compartilhar uma síntese dos gêneros que costumo e gosto de ouvir ou cantar, na certeza de que as minhas simpatias musicais devem coincidir com a de muitos que têm por hábito desfrutar dos belos e emocionantes momentos proporcionados pela poesia e pelas melodias inspiradas que nos acostumamos a escutar. Estou certo de que, assim como eu, há pessoas que apreciam a música clássica, o tango argentino, o bolero latino, as canções italianas e francesas, presas do mesmo envolvimento com que ouvem os violões, os cavaquinhos e bandolins de um chorinho brasileiro, as vozes especiais dos cantores populares, o sonoroso canto de Luiz Gonzaga, estrela maior do ritmo nordestino, a batida especial da Bossa Nova, dos talentosos sambistas, e de todos aqueles em cujos repertórios, certamente, constará sempre a nossa música preferida.

 

 

 

 

 

Alberto da Hora – escritor, músico, cantor e regente de corais

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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