A MADAME –

Malvino, 65 anos, morava perto de um botequim, que era um verdadeiro canavial. Lá, a cana corria solta e os caneiros enchiam a cara no final da tarde, entrando pela noite. Uns iam curtir a bebedeira em casa e outros ficavam no botequim até de madrugada.

Malvino fazia parte do grupo que ia curtir a cana em casa. Valdete, sua segunda esposa, uma mulher braba e irreverente, não permitia que ele cometesse excessos com a bebida. Ia buscá-lo no botequim todas as noites e ele a obedecia mansamente.

Muito querido pela turma da boemia, Malvino, contador aposentado, era considerado um intelectual.

Era bom de copo e de prosa. Lia os principais jornais da cidade, diariamente, e assistia aos telejornais.

Sempre que anoitecia, ele avisava aos companheiros de copo:

– Daqui a pouco, a chata da minha patroa vem me buscar para jantar. Não aguento mais essa jararaca. Parece uma bruxa. Só falta uma vassoura, para que saia daqui voando.

As gargalhadas dos boêmios que ali se encontravam eram uníssonas.

Na verdade, a esposa de Malvino parecia um sargento de cavalaria reformado. Mandona e prepotente, não hesitava em agredi-lo fisicamente, se o encontrasse embriagado. Certa vez, nesse botequim, ela tirou o sapato e deu-lhe na cara, por encontrá-lo bêbado. Se ele discordasse de uma opinião sua, a mulher partia logo para o bufete.

Malvino sentia-se injustiçado, perante a sociedade. Sonhava com a Lei “Malvino”, para concorrer com a Lei “Maria da Penha”.

Num final de tarde, quando o papo estava animado, e Malvino tinha enchido a cara, Valdete chegou para buscá-lo. Ao vê-lo embriagado, ficou possessa e gritou:

– Ah, bandido! Eu pedi para você não beber hoje, pois nós vamos ao aniversário do meu irmão! Ande logo, seu irresponsável!!!

Envergonhado perante os amigos, o homem respondeu:

-Tenha calma, querida! Quase não bebi…

De nada adiantaram suas palavras. Parecendo endemoniada, a mulher arrastou o marido pelo braço e deu-lhe um empurrão, que o desequilibrou na calçada.

Os companheiros de copo baixaram a cabeça, fazendo de conta que não estavam vendo nada.

Entretanto, um velho “cachacista”, que estava na calçada e a tudo assistira, ao ver Malvino levar um empurrão da mulher, não se conteve e gritou:

– Mulher dos seiscentos diabos, respeite seu marido!!! Volte para o lugar de onde saiu!!!

Na realidade, há dez anos, Malvino havia se apaixonado por Valdete, num cabaré. De prostituta, ela passou a “madame”.

Vinte e cinco anos mais nova do que ele, nunca conseguiu ser “bonita, recatada e do lar.” Era somente “boazuda”. Parecia que tinha escrito no rosto: “Eu sou p….”

E o velho “cachacista”, ainda indignado e irreverente, continuou falando:

– Essa mulher, Malvino tirou da Zona. Mas ela nunca deixará de ser “quenga”!!!

Violante Pimentel – Escritora

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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