A CRISE –

A rotina é a maior vilã que existe na vida conjugal. É tão perigosa quanto a infidelidade. Põe fim às paixões violentas, destrói a atração física e até a vaidade do homem e da mulher.

Marleide, casada há oito anos com Vítor, estava insatisfeita com a monotonia do seu casamento. Não tinham filhos, e ela se contentava em cuidar da casa e do marido. A paixão que os uniu já tinha se evaporado, no tempo e no espaço.

Recentemente, Marleide tinha lido numa revista, que o marido lhe trouxera, o benefício que as férias conjugais representavam para o casal em crise. Sobre o assunto, havia depoimentos de diversos médicos, inclusive de um psiquiatra, favoráveis a esse tipo de férias. Todos tinham a mesma opinião de que a insatisfação conjugal era responsável pelo aparecimento de várias doenças, inclusive gastrite e depressão.

Marleide era hipocondríaca e ficou impressionada com o que lera nessa revista, sobre o perigo das crises conjugais. Convencida de que um casamento fracassado poderia adoecer o casal, Marleide resolveu fazer a sua parte. Para tentar salvar seu casamento e preservar sua saúde e a do seu marido, estava decidida a tirar férias conjugais, por período indeterminado.

Para completar sua irritação, naquela tarde, Vitor lhe telefonou, avisando que, depois do trabalho, levaria seu amigo Tiago para jantar, e, por isso, ela caprichasse um pouquinho mais na comida.

Foi a gota d’água. Marleide achava Tiago intolerável. Pernóstico e falante, esse advogado tinha mania de grandeza. Vítor o bajulava, por ser ele de família de políticos. As conversas eram sempre as mesmas, e seu marido dizia “amém” para todas as suas opiniões. Transformara-se num puxa-saco de 1ª grandeza.

Irritadíssima, por Vitor não respeitar sua antipatia por Tiago, Marleide não fez jantar nenhum. Preparou uma bolsa de viagem, e se mandou para Fortaleza, onde residiam seus pais. Resolveu “dar um tempo” ao seu monótono casamento, e refletir sobre os seus sentimentos com relação ao marido. Deixou um bilhete em cima da mesa, dizendo que precisava de férias conjugais. Não disse para onde iria, nem quando voltaria.

Ao chegar em casa, sem amigo nenhum, Vítor não encontrou a esposa, como também não encontrou jantar preparado. Leu o bilhete da mulher e sorriu de felicidade.

Afinal, a revista funcionou… Era o que ele mais queria.

Feliz da vida, ligou para os amigos e foi comemorar sua liberdade.

 

Violante Pimentel – Escritora

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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