A CRISE DE LEGITIMIDADE QUE ATORDOA O MUNDO – Geraldo Ferreira

A CRISE DE LEGITIMIDADE QUE ATORDOA O MUNDO –

Duas doenças acometem o Ocidente. A falta ou quebra das hierarquias e a idiopatia de jogar para o outro a culpa pela impotência ou fracasso em materializar a esperança. O culpado será sempre o outro, sociedade, o capitalismo, Deus. A ideologia será sempre uma coisa perigosa, pois envolve, além da política, o sentimento fanático e fraudulentamente religioso de fazer o bem, fantasiado de belo, sem o norte do verdadeiro. É trágico esse desejo de intimar o bem a qualquer custo, criadouro de projetos autoritários, onde os seres humanos passam a ser instrumentos e não fins das ideias abraçadas. Em Cartas do Diabo a seu aprendiz, C. S. Lewis diz “a justiça do inferno é puramente realista, preocupa-se tão somente com os resultado. Seja o que for que os homens esperem da vida, eles logo vão achando que tem direito a isso.” Em A Poeira da Glória, Martim Vasquez escreve que com o descarte da religião e o fechamento da esfera transcendente “ o homem se revolta contra a criação, contra Deus, e pretende substituí-lo, ora por um demiurgo, ora por uma ideia, ora pela História, ora pela luta de classes.” Muitos defendem que se queremos que nossa civilização não desmorone, nem se torne presa fácil do totalitarismo cultural e político das tiranias, alguns pontos precisam ser avaliados. A perda da noção de valores absolutos, conduzidas pela visão de que o bem e o mal são relativos e ligados à cultura, que valores são frutos da pluralidade da vida política e da sociedade são estratégias da idolatria política, em seu jogo de fabricar deuses em conformidade com escolhas discricionárias. Isso tem paralisado a sociedade na sua capacidade de enfrentar o mal, o fanatismo, a barbárie, analisados antes sobre sua origem. Outro ponto atacado tem sido o da natureza e personalidade humana. A linguagem, o conhecimento, o pensamento, as emoções e aspirações, de alguma forma são moldadas pelo que experimentamos no ambiente, mas a crença de que não exista um núcleo inerente da natureza e singularidade humana, esvazia a noção de dignidade e direitos, e retira o sentimento de responsabilidade pessoal. Mais um ponto, colocado por Leszek Kolakowski em A Modernidade em Julgamento, que se tornou destrutivo é a “erosãou da consciência histórica.” O passado histórico é um componente real e ativo, é uma referência sempre presente em nossos atos e pensamentos. A ideia de que não temos o que aprender com a História é desastrosa para nossa civilização, levando ao extremo de, desenraizados, não sabermos sequer quem somos. A História é um imperativo que não pode ser eliminado e se sua moldura for perdida, na crença de que os sonhos de perfeição possam ser alcançados, viveremos uma ilusão mortal. O conhecimento histórico, escreve Kolakowski, embora não possa impedir surpresas “pode, pelo menos nos proteger contra esperanças tolas e revelar os limites de nossos esforços, por aspectos permanentes da natureza humana e da Grande Natureza, e pelo peso da tradição.” Amin Maalouf em O Mundo em Desajuste diz que “a história de todas as sociedades humanas poderia ser contada ao ritmo das crises de legitimidade. Após uma reviravolta, outra legitimidade emerge, vindo a substituir aquela que se desmancha. Mas a persistência dessa nova legitimidade vai depender de seu sucesso.” Decisões ou atitudes políticas são tomadas colhendo auxílio na lei divina, na lei natural, no contrato social ou no sentimento de continuidade histórica, um compromisso entre gerações, como disse Burke, os vivos, mortos e os que estão por vir. Maalouf, referindo-se à crise moral do nosso tempo, concebida como perda de referências ou de sentido, coloca o ponto de vista que a solução pode não estar na volta ao passado ou a legitimidades antigas, mas “também não se encontra no relativismo moral que santifica o egoísmo e idolatra a negação”, e, reconhecendo que o futuro não está escrito de antemão, diz que cabe a nós “escrevê-lo, concebê-lo, construí-lo, com audácia, generosidade, porque é preciso agregar, tranquilizar, ouvir, incluir, compartilhar; e, antes de tudo, com sabedoria.”

 

 

 

 

 

 

 

 

Geraldo FerreiraPres. SinmedRN
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