A ARTE DA GUERRA – Alberto Rostand Lanverly

A ARTE DA GUERRA –

Há livros que permanecem nas estantes. Outros caminham conosco, porque suas lições escapam das páginas e, silenciosamente, misturam-se à vida. É o que acontece com A Arte da Guerra, de Sun Tzu.

Penso nisso quando me lembro de Damião e Ana. Eles nunca estudaram estratégias militares nem conhecem os campos de batalha da China antiga. Talvez jamais tenham lido Sun Tzu. Mas, se o velho mestre oriental pudesse caminhar pela MuSilva, certamente reconheceria naquele casal muito de seus ensinamentos.

Ali, entre coqueirais, animais e o vento que sopra das dunas do Peba e bandas do São Francisco, Damião e Ana encontraram uma forma simples de felicidade. A deles foi construída devagar, no enfrentamento diário das pequenas batalhas. Porque uma fazenda também conhece suas guerras.

Damião aprendeu a enfrentar tudo isso como um estrategista. Se algo quebra, procura consertar. Se a natureza muda seus planos, adapta-se a ela. Conhece cada pedaço da MuSilva, percebe os sinais do tempo e sabe que há momentos de avançar e outros de esperar. Sun Tzu chamaria isso de conhecer o terreno.

Ana domina território ainda mais delicado: o coração humano. Sua estratégia é cuidar. Da casa, das plantas, dos animais, de Damião e das pequenas coisas que, aparentemente insignificantes, acabam sustentando uma vida inteira. Sabe quando uma palavra precisa ser dita e, principalmente, quando o silêncio vale mais.

Talvez porque tenham compreendido, mesmo sem nunca terem lido o velho mestre chinês, que os maiores adversários da vida raramente estão do outro lado de uma trincheira. São o medo, a impaciência, o desânimo, a desesperança e, principalmente, a vontade de desistir.

Por isso, quando releio A Arte da Guerra, penso que existem livros que não precisam ser conhecidos para que seus ensinamentos sejam praticados. Sun Tzu escreveu sobre estratégia há mais de dois mil anos. Damião e Ana a praticam todos os dias, sem livros, soldados ou exércitos.

Na Fazenda MuSilva, quando Damião abre a porteira e Ana abre as janelas da casa, ambos parecem repetir uma antiga lição: a vida sempre terá suas batalhas. A verdadeira sabedoria está em vencê-las sem permitir que nos roubem a felicidade.

 

 

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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