VIRAMUNDO 28 –

Segismundo Quaresma não tinha apelido, apesar de morar em Saqarema, litoral de São Paulo, perto da praia que ele tanto adorava. Praticava surf e aquelas músicas ininteligentes dos campeonatos o incentivava bastante até que conheceu Lobinho, Paulo Lobo, que tocava guitarra e curtia um som adoidado em altos volumes, no meio da rua, em casa e a vizinhança não perdoava, xingava mesmo.

– Lobinho, vou botar letra nas suas doideiras. Vamos experimentar? Aí começou uma dupla musical de gosto duvidoso, mas começou.

Segi, Lobinho botou logo um apelido nele, entre uma baforada e outra de maconha, fez uma letra meia doida sobre o pouso da abelha rainha. Ninguém entendeu nada, mas o som era legal.

– Lobinho você canta melhor do que eu. Essa sua voz anasalada é demais. Vamos fazer sucesso.

– O que você acha deu deixar a barba e o cabelo crescerem?

– Manêro. Vamos cuidar do visual. Eu fico mais sério, tipo escritor e você relaxado, tipo aqueles baianos malucos da ladeira do Pelourinho.

– Vamos pro Rio tentar um Programa de Televisão?

– Vambora meu Rei. Viu que eu já tô abaianado?

– Não tem pra ninguém. Eu musicando e você fazendo a letra. É demais, mano.

A dupla Segi e Lobinho cantava toda sexta-feira à noite na boate inferninho, na periferia, perto da favela da muriçoca. Pense num barulho.

Lobinho foi primeiro pro Rio e lá ficou num hotelzinho atrás da Radio Nacional, no Centro do Rio. Quarto 43. No corredor tinha um banheiro coletivo. A  mala de roupas ficava em cima de um caixão de maçãs e a guitarra debaixo da cama, escondidinha pra ladrão nenhum desconfiar.

– Segi, tô na fila pra me apresentar no Programa do Chacrinha. Não sei quando, mas vou aparecer por lá. O pessoal da produção gostou da musica do pouso da abelha rainha. Perguntou quem era o autor e eu falei que era você, Segismundo Quaresma.

– Um barato mano. Vamos arrebentar ai no Rio. Depois do Chacrinha vamos pro Rock in Rio e aí pro resto do mundo.

Bem, Segismundo separou-se de Lobinho e seguiu sua vida escrevendo, de início temas sobrenaturais. Seu primeiro livro foi um sucesso mas não tinha revisão e os críticos mostraram que ele era um escritor analfabeto, com o livro cheio de erros de ortografia e pontuação, mas não impediu  seu sucesso.

– Segi e agora, tu vai pra onde?

– Pra França.

Chegando lá casou com uma brasileira, pintora e ficaram famosos. Hoje eles moram na Suiça e falam mal do Brasil.

– Encontrei Segi no Conjunto Nacional, em Brasília e perguntei curioso: – Segismundo, quem é o seu grande ídolo?

– Paulo Coelho.

 

 

 

Jaécio Carlos –  Produtor e apresentador dos programas Café da Tarde e Tribuna Livre, para Youtube.

As opiniões emitidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

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  • Muito interessante Segi e Paulinho.
    A vida é bem assim...
    Uns tem gratidão, outros tem nada haver!
    Triste fim de...

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