Se o jeito de falar de Vini Jr. fosse aplicado ao futebol, poderíamos dizer que ele quer prorrogação mesmo na primeira fase da Copa, quer pênaltis, quer um jogo infinito, quer o cancelamento dos “cooling breaks”, quer terminar o do Marrocos e já começar o do Haiti (por que não emendar também com o da Escócia), pois ele é: um atleta inimigo do fim.
Vários trechos de entrevistas recentes de Vini viralizaram nas redes sociais para ressaltar o curioso hábito do jogador de não dar uma entonação de ponto-final no fim das frases.
A especulação mais comum nos comentários é que isso seria uma influência da língua espanhola, já que ele mora em Madrid, na Espanha, desde julho de 2018.
O g1 chamou o VAR, composto por linguistas especializados nas interferências entre a língua portuguesa no Brasil e a variante do espanhol de Madrid, para analisar se a hipótese faz sentido. Elas tiveram de revisar o lance algumas vezes. Vamos entender qual a conclusão abaixo.
Em resumo: O que ocorre é um fenômeno chamado de atrito linguístico.
Isso significa que passa a ocorrer uma mudança na língua materna dele (português) em função do uso constante de outro idioma (espanhol).
“No caso de Vini, esse atrito linguístico está no nível prosódico [ou seja, ritmo, velocidade, intenção e melodia da fala], em especial, na entoação”, afirma Maristela Pinto, professora-doutora da língua espanhola na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
Existe uma diferença grande entre esse “sobe e desce” quando o falante faz uma pergunta de “sim ou não”:
Exemplo: “Você que fez esse bolo?”. Leia em voz alta. Perceba como a última sílaba (“lo”) fica bem mais fraquinha do que o resto da frase.
Exemplo: “¿Tú hiciste este pastel?. O “auge” da pergunta, o ponto mais alto dela, é justamente o “tel”.
“Para um nativo do português do Brasil, terminar as perguntas em espanhol é mais complicado, justamente porque o português perde força nas sílabas finais”, afirma Adriana María Ramos Oliveira, professora do Instituto Cervantes de São Paulo e do CEFET/RJ.
“Se aplicar a mesma dinâmica [de ‘descer’ no fim da questão’] em Madrid, vai ficar sem resposta. Não vão entender que é uma pergunta”, completa ela, que é especialista na fonética e na fonologia espanholas em contraste com o português do Brasil.
➡️O que Vini vai além desse “engano”: ele emprega a entoação típica de perguntas em Madrid e a aplica em absolutamente qualquer frase afirmativa em português.
“Como ele está terminando as frases ‘subindo’, soa estranho e com essa sensação de não conclusão do pensamento, de não fim da frase, rotulada de forma brincalhona como ‘inimigo do ponto-final’”, diz Maristela, da UFFRJ.
Está tudo bem, Vini? Ou melhor, está tudo bem, Vini. Não é fácil usar mais de uma língua no dia a dia.
Fonte: G1
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