Carlos Alberto Josuá Costa

 “Por mais raro que seja, ou mais antigo, só um vinho é deveras excelente, aquele que tu bebes, docemente, com teu velho e silencioso amigo” (Mário Quintana).

A parceria da música com o vinho remonta dos grandes banquetes onde os bárbaros no sentido de celebrar a vida em uma conjunção de emoções, entornavam suas canecas de vinho em cantos e danças, ou ainda da suntuosidade dos reis e rainhas que se elegravam com suas taças douradas, ao som das liras que dedilhadas davam vida as festividades palacianas.

Da uva fermentada tiramos notas afinadas que se fundem em sons e paladares, ou seguimos um repertório que, em algumas situações, descasam com a beleza da degustação, ou ainda impomos um silêncio insano a esse momento.

Todos os vinhos carregam na sua adstringência uma pauta que absorve a sutileza de um tema musical. O momento mágico desta união só é percebido quando outros fatores como, ambiente, clima emocional, temática, momento vivido e as boas companhias, se juntam num cenário propício para que o equilíbrio se manifeste.

A relação harmônica, dos polifenóis do vinho com a melodia musical, assume a responsabilidade pela virtude da afinidade, quando a ela permitimos que nos envolvam de forma tão especial.

Tal como o vinho, a música deve ser degustada e não simplesmente ouvida. E se assim acontece, a percepção da alegria inebriante se torna mais intensa pela harmonia de ambos.

Roger Stankewski nos diz: “Quero um bom vinho, uma boa trilha sonora, um bom lugar e um novo e arrebatador amor”.

Comecei a me debruçar sobre essa dupla, “vinho e música”, a partir de um convite que recebi para participar de uma comemoração na casa de um amigo. No ato, me foi dado o recado que deveria levar um vinho. Imaginei que seria então um jantar, à luz de velas, com sorrisos e alegrias expostas. No entanto, ao confirmar, minha imaginação foi por terra. Era um churrasco, meio-dia, e muito pagode.

Não seria tudo isso compatível com ‘cevada fermentada’ ou ‘cana-de-açúcar destilada’?

Para este cenário, iria acompanhado do compatriota “Dom Bosco”, uma vez que  a chilena “Carmem” ou a portuguesa “Carlota Joaquina” não me fariam companhia a um ambiente, onde as notas e os sabores não seriam carregados de emoções plenas.

Afinal, qual a boa música para acompanhar um bom vinho?

O que combina mais com vinho: mpb, jazz, rock clássico, pop, blues, bossa nova, romântica, música clássica, reggae, ou a música instrumental?

Parece difícil, mas vamos nos envolver com seguintes contextos: o do vinho e o da música.

O vinho nasce da escolha de uma base que permite extrair a “força” ou a “fragilidade” que aflorará no fruto – a uva – que se transformará em néctar dos deuses. Colhida com afeto por mãos cuidadosas, esmagada, fermentada e, posta em descanso em forma de líquido, antecipa o delírio que provocará aos amantes da vida. Assim, a cada ‘deguste’, um sabor, um aroma, uma sensação de virtude, brotará nos corações que anseiam por um momento de sublime encanto.

A música nasce da concentração de seu autor, assentada em pilares da emoção: um amor desejado, um amor conquistado, um amor vivido, um amor perdido. Em cada etapa, o regozijo, o deleite e o prazer, estão lado a lado com o aborrecer, a mágoa, e a decepção, pelo inicio ou final de uma relação que surgiu de um olhar despretensioso. Assim, cada palavra que compõe a “letra” ou cada nota que se traduz em melodia, traz um recado para ele, o autor, ou para ela, a inspiradora.

O vinho e a música sempre se complementaram como ponto de união do homem com o sagrado, na busca do entendimento de tão íntima relação.

O vinho tem poesia tal qual a música, pois neles, como vimos, há a expressão de um autor, que utilizando sua natureza criativa, impinge a clara percepção de que a compatibilidade entre o vinho e a música pode ser perfeita.

Como tudo na vida, cada gosto é personalizado e, portanto a melhor música ou o melhor vinho é aquele que “embebe” você de emoções e “flexibiliza” a razão para que o outro também possa dizer: “gostei mais dessa música e daquele outro vinho”.

Não posso, no entanto, me furtar a opinar sobre algumas, entre tantas combinações, que me permite esse encaixe nos típicos momentos deleitosos:

Músicas do violonista mineiro Gilvan de Oliveira, como “Toninho’s Bossa” e “Um Dia Fora de Tempo”, acompanhado por vinhos Carbernet Sauvignon, Syrah ou Gamay, se fundem de forma magistral.

Músicas de Luiz Melodia, Seu Jorge e Itamar Assumpção, realçam os sabores e os aromas de vinhos Malbec, Touriga Nacional e Carmenere.

Músicas de Etta Jones fluem nas notas do blues e deságuam em vinhos Pinot Noir, Pinotage e Sangiovese, de forma tão pura que o próprio Baco esboçaria um largo sorriso.

Nada, porém é mais nobre e harmonioso que experimentar um desses momentos ao lado de uma pessoa amada.

“Acredito que a qualidade do vinho se eleva a cada paladar quando estamos em companhia de pessoas que escolhemos como especiais, e envoltos por uma trilha musical que nos remetem a momentos inusitados e cheios de ânimo pela beleza da vida” (Soraya Morais).

“Que nossa vida seja como um bom vinho, que com o passar do tempo, nos mostre outros sabores diferentes, mas nem por isso menos especial ou intenso, assim como uma boa música repleta de lembranças, cheiros e cores” (Silvana Helena Costa).

Encontre você a sua melodia e o seu vinho.

Carlos Alberto Josuá Costa – Engenheiro Civil e Consultor (josuacosta@uol.com.br)

Ponto de Vista

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