Jaecio Carlos*

Há grande diferença entre ser velho e ser idoso. O velho é aquele que não trabalha mais, vive esperando a morte chegar, reclamando da vida, cabisbaixo e resmunguento. Sente dores em todo o coro. Osteoporose, mal de Alzheimer, Pakinson, disfunção erétil, essas coisas, são os companheiros mais frequentes. Quando relembra de algo fala assim: “ah! Eu já fui bom nisso”, “na minha época eu atravessava o Rio Potengi, nadando até a Redinha e lá comia peixe frito com tapioca acompanhado de cerveja e cachaça”, “namorava muito e minhas farras iam até de madrugada”. O velho, quando lúcido, só conta vantagens de quando era jovem. Geralmente aposentado, fica torcendo pra chegar logo a data do pagamento pra  mandar a filha com a carteirinha da Caixa ir buscar a grana, de manhã cedo, no caixa eletrônico.

Velho tem hábitos e frustrações e teima em dividir com os outros suas histórias e estórias. Resiste em morar em asilos e quando vai, fica solitário, isolado de todos até se acostumar com os novos companheiros. A ansiedade para receber visitas o deixa nervoso e inquieto, as vezes  faz uma pequena greve de fome. Chantageia todo mundo,depois se cansa e vai dormir na rede. Não gosta de cama.

Já o idoso é diferente. Gosta de trabalhar, criar joguinhos de quebra-cabeça e relembrar das coisas boas que lhe  aconteceram ao longo da vida. Curte os netos mais que os próprios filhos e adora viajar com a mulher pra conhecer o mundo e visitar parentes no interior. Come de tudo, faz caminhadas pela praia e adora musica clássica, principalmente Chopin e Beethoven. Se for escritor ou jornalista, então, passa  o dia escrevendo. E agora que descobriu a Internet, participa das redes sociais divulgando suas peripécias e fotos com os amigos pelos facebooks da vida.

No whasapp o assovio não pára. Manda e recebe mensagens toda hora ate adormecer de cansaço. Detesta novelas mas gosta de um bom jogo de futebol.  A bebida preferida é um bom cálice de vinho, no almoço: “pra viver mais saudavelmente”. Vai ao médico, regularmente, e obedece as recomendações. Ser idoso é um privilégio. Costuma dizer “quem trabalha não adoece” e quando repousa, numa rede espaçosa, na varanda da casa em frente a uma TV, tela plana, cristal líquido, 42 polegadas, é pra ver filmes de John Wayne e outros bang-bangs, relembrando os tempos de juventude quando ia ao cine Rio Grande nas tardes de sábado com a namorada, coleguinha da escola.

Não gosta de política. Viveu o golpe militar de 64 e acha que ta na hora de mudar. “Nunca vi tanto roubo na minha vida”, comenta “seu” Erasmo, 84 anos, de cara feia.

O idoso curte a vida, melhor.

*Jaecio CarlosPublicitáro e palestrante

Ponto de Vista

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